Mostrando postagens com marcador Formação Intelectual. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Formação Intelectual. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

William Hazlitt- Da Desvantagem da Superioridade Intelectual

por William Hazlitt

traduzido por: Leandro Diniz ||

fonte: http://www.blupete.com/Literature/Essays/Hazlitt/TableTalk/Superiority.htm

Vai-me perdoar o leitor pela tradução. Não que considere estar ruim, mas certamente ótima não está. Hazlitt era um escritor dos mais redondos. Transitava entre as expressões cultas e diárias tão facilmente quanto manejava as liberdades gramaticais da sua língua. Tais elementos são deveras difíceis de resolver. Mas dada a pertinência do tratamento para o estudo do nosso meio, que deixa o ambiente do próprio escritor um paraíso, tive de publicá-la, a transcrição. Como noutras transliterações, as notas próprias do autor vão sem nenhuma indicação, as que estão indicadas como [notas do editor] são do editor do livro, cuja edição não faço a mínima noção. E, ainda, as notas assinaladas como [notas do trad.] são as que eu mesmo pus contextualizando, no máximo que pude, as referências e citações. Sem mais, boas leituras.

------------------------------------------------------------------------

A principal desvantagem de saber mais, e enxergar mais além do que os outros, é geralmente não ser entendido. Um homem está, em conseqüência disto, sujeito a originar paradoxos, que imediatamente o transportam para além do alcance do leitor comum. Uma pessoa falando, uma vez, de uma maneira trivial de um homem de mente muito original, recebeu como resposta: "Ele caminha com passos tão largos, tão longe de você, que ele diminui à distância."

Petrarca reclamava que a "Natureza o fez diferente das outras pessoas" — singular d'altri genti. A grande felicidade da vida é: nem estar melhor nem pior do que o rumo geral daqueles com quem você se encontra. Se você está abaixo deles, você é atropelado; se está acima deles, logo encontra um nível mortificante na diferença deles, sobre a qual você, particularmente, se aborrece. Qual é a utilidade de ser moral em uma cela de prisão ou sábio em Bedlam[1]? "Ser honesto, como anda este mundo, é ser um homem escolhido dentre dez mil outros." Assim diz Shakespeare; e os comentadores não adicionaram que, sob tais circunstâncias, um homem é mais provável tornar-se um fundo de calúnia do que o alvo de admiração, por assim ser. "Que passa, meu caro colega?"[2] é a resposta usual a todas estas pretensões excessivas. Ao não fazer [em Roma] como faziam aqueles em Roma, nós cortamos nós mesmos da sociabilidade e da sociedade. Falamos outra língua, temos noções de nós próprios e somos tratados como uma espécie diferente. Nada pode ser mais complicado que adentrar com tais idéias rebuscadas no rebanho comum, que certamente vai

"Permanecer de todo atônito, como um tipo de novilhos,

Entre quem alguma besta de raça estranha e estrangeira

Inconsciente é sucedida, vagueando longe de seus pares: Assim

vão seus olhares medonhos trair seus medos ocultos."

"Stand all astonied, like a sort of steers,

'Mongst whom some beast of strange and foreign race

Unwares is chanced, far straying from his peers: So

will their ghastly gaze betray their hidden fears."

A ignorância do propósito do outro é uma causa suficiente de medo e medo produz ódio: por isso a suspeita e o rancor lançados contra todos aqueles os quais estabelecem um refinamento e sabedoria maiores, que seus vizinhos. É em vão pensar em amaciar este espírito de hostilidade pela simplicidade nas maneiras ou pela condescendência às pessoas de menor estatura. Quando mais condescendente, mais eles vão atrever-se em relação a isto; eles o temerão menos, mas te odiarão mais; e estarão mais determinados a se vingar de você pela superioridade, para a qual eles estão inteiramente na escuridão e da qual você mesmo parece nutrir dúvidas consideráveis. Toda a humildade do mundo apenas passará por fraqueza e idiotice. Eles não possuem a noção de tal coisa. Eles sempre querem dar uma boa impressão; e argumentam que você faria o mesmo se tivesse quaisquer de tais talentos dos quais as pessoas falam. Portanto, é melhor você jogar fora o grande homem de uma vez -- ser valentão, arrogante, falar empostado e passar por cima deles: você pode, através disso, pretender extorquir um respeito externo ou uma civilidade comum; mas você não terá nada (com as pessoas baixas) pela paciência e boa natureza, somente o insulto declarado ou um desprezo silencioso. Coleridge sempre fala com as pessoas sobre o que elas não entendem: eu, por exemplo, procuro falar com elas sobre o que elas realmente entendem, e encontro somente a mais má-vontade com isso. Elas julgam que eu não penso delas como capazes de nada melhor; que eu não penso que vale à pena, como o vulgo diz, lançar uma palavra aos cães. Eu, certa vez, reclamei disto com Coleridge, pensando nisto à duras penas, que eu devesse ser enviado a um Convento por não fazer uma exibição prodigiosa. Ele disse: "Na medida em que você assume um personagem, você deve produzir suas credenciais. É um ônus sobre a boa natureza das pessoas admitir algum tipo de superioridade, mesmo quando existe a prova mais evidente disto; mas é uma tarefa muito dura para a imaginação admiti-lo sem qualquer fundamento aparente disso."

Não existe, então, um erro maior que supor que você evita inveja, malícia e a falta de caridade, tão comuns no mundo, indo entre as pessoas sem pretensões. Não existem pessoas que não tenham pretensões; ou menores suas pretensões, menos elas podem agüentar reconhecer as suas sem algum tipo de apreço recebido. Quanto mais informações os indivíduos possuem, ou quanto mais eles se aperfeiçoaram em dado assunto, tanto mais eles prontamente podem conceber e admitir o mesmo tipo de superioridade, que sentem dos outros, a si mesmos. Mas da ignorância e vulgaridade baixas, imbecis e do nível do esgoto, nenhuma idéia ou amor à excelência pode surgir. Você pensa que está indo consideravelmente bem com eles; que você está deixando de lado a secura do pedantismo e da pretensão e ganhando o caráter de um tipo de simples, despretensioso e bom companheiro. Isto não funcionará. Durante todo o tempo em que você está fazendo estes avanços familiares, e esperando estar à vontade, eles estão tentando te passar pra trás. Você pode esquecer que você é um autor, um artista ou que não é -- eles não esquecem que não são nada, nem diminui a ponta de desejo de provar que você está na mesma situação. Eles lançam mão de alguma circunstância da sua roupa; sua maneira de entrar numa sala é diferente da dos outros; você não come vegetais -- isto é estranho; você possui uma expressão particular, que eles repetem e isto torna-se um tipo de piada padrão; você parece grave, ou doente; você fala, ou é mais silencioso que o normal; você está, ou não está, com dinheiro: todas essas pequenas e insignificantes circunstâncias, nas quais você se assemelha, ou difere das outras pessoas, formam muitos dos pontos da acusação contra você que está acontecendo na imaginação delas, e são muitas as contradições no seu caráter. A qualquer outra pessoa eles passariam em branco, mas a uma pessoa da qual eles ouviram tanto, não podem de todo evitar. Enquanto isso, aquelas coisas nas quais você pode realmente ser excelente passam em branco, pois eles não podem julgá-las. Eles falam muito bem de algum livro que você não gosta e, portanto, você não responde. Você recomenda a eles irem ver alguma pintura, na qual eles não acham muito a admirar. Como você os convencerá que está certo? Você pode fazê-los perceber que as falhas estão neles e não na pintura, ao menos que você consiga dar-lhas seu conhecimento? Elas mal distinguem a diferença entre um Correggio[3] e uma sujeira qualquer. Isto lhe deixará mais próprio de um entendimento? Quanto mais você sabe a diferença, mais profundamente você a sente, ou mais intensamente você deseja transmiti-la, mais longe você se encontra encerrado à uma distância incomensurável da possibilidade de conduzi-los a visões e sentimentos para os quais eles não possuem nem mesmo os primeiros rudimentos. Você não pode fazê-los ver com seus olhos e eles devem julgar por si mesmos.

A força intelectual não é igual a física. Você não tem poder no entendimento dos outros, a não ser pela simpatia deles. Você saber, de fato, muito mais sobre um assunto, não te dá uma superioridade, ou seja, um poder sobre eles, mas apenas torna mais impossível para você fazer a mínima impressão neles. É, então, uma vantagem para você? Pode ser, enquanto está relacionada a sua própria satisfação, mas isto coloca um fosso profundo entre você e a sociedade. Isto coloca tropeços a cada curva do seu caminho. Tudo aquilo pelo que você tem o maior orgulho e prazer está perdido aos olhos vulgares. Com o que eles ficam satisfeitos é certa indiferença ou desgosto por você. Ver várias pessoas folhear um portfólio de gravuras de diferentes mestres; que desafio isto é para a paciência, como dá nos nervos ouvi-las cair encantadas com alguma banalidade de lugar comum e passar sobre alguma divina expressão de fisionomia sem notar, ou com uma observação de que ela é muito peculiar? Quão inútil é, em tais casos, se abalar ou argumentar ou protestar? Não é, tão bom também, estar sem todo esse conhecimento hiper-crítico e fastidioso e ser agradado ou desagradado como for, ou lidar com a primeira falha ou beleza que é apontada pelos outros? Eu ficaria grato em mudar minha familiaridade com as pinturas e livros e, certamente, o que eu sei da humanidade, pela ignorância comum delas.

Está registrado na vida de algum notável (de quem o nome eu me esqueci) que foi um daqueles "que amava a hospitalidade e o respeito": e eu confesso pertencer à mesma classe do gênero humano. A civilidade está comigo como uma jóia. Eu gosto de um pouco do elogio confortável e do papo indolente e descuidado, eu odeio ser sempre sábio, ou buscando a sabedoria. Eu tenho muito a ver com cabalas literárias, questões, críticos, atores, escrita de ensaios, sem levá-los comigo para a diversão e para todas as companhias. Eu desejo, nesses momentos, passar como uma companhia bem-humorada; e boa vontade é tudo que eu quero em retorno para ser uma boa companhia. Eu não desejo estar sempre me colocando, e aos outros, as questões do destino, do livre-arbítrio, presciência absoluta, etc. Eu devo afrouxar algumas vezes. Devo ocasionalmente parecer inculto. O tipo de conversa que mais me incomoda é aquele de como está o dia e se provavelmente amanhã vai chover ou terá um dia limpo. Isto eu considero embora apreciando o otium cum dignitate, o ócio honrado, como o fim e privilégio de uma vida de estudos. Eu me resignaria a este estado de fácil indiferença, mas eu noto que não posso. Devo manter uma certa pretensão, que está muito longe do meu desejo. Devo ficar na defensiva. Eu devo assumir o desafio continuamente, ou acho que estou perdendo terreno. "Eu não sou nada, senão crítico." Enquanto eu estou pensando que horas são ou como eu vim a citar inadvertidamente uma passagem bem conhecida, como se eu o tivesse feito de propósito, os outros estão pensando se eu não sou verdadeiramente um colega maçante como, algumas vezes, dizem que sou. Se uma chuva garoa tamborilando contra as janelas, isto me trás à mente uma suave chuva de primavera, da qual eu escapei vinte anos atrás, em um pequeno bar perto de Wem em Shropshire e enquanto eu olhada para as plantas e arbustos, ante a porta, bebendo do orvalho úmido, sorvia um copo de cerveja espumante e voltei para casa no crepúsculo da noite, mais claro para mim do que o sol do meio dia como está agora! Devo suavizar este sentimento? Em vão. Eles me perguntam quais são as novidades e me encaram se eu digo que não sei. Se uma nova atriz apareceu, por que eu devo tê-la visto? Se um novo romance surgiu, por que eu devo tê-lo lido? Uma vez, eu costumava ir sentar-me à mesa de cribbage[4] com um amigo, depois devorava um frio bife de lombo de vaca e fazia umas observações desinteressadas, de um jeito que me satisfazia, mas isso não durou muito. Eu estabeleci uma pequena pretensão e, portanto, esse pouco que foi estabelecido por mim foi tomado de mim. Como eu mesmo não disse nada sobre aquele assunto, era continuamente jogado na minha cara que eu era um autor. Tendo-me nesta desvantagem, meu amigo queria se aproveitar de uma falha ou duas no jogo, e ficava insatisfeito se eu não o deixasse. Se eu o ganhava, seria estranho se ele não entendesse o jogo melhor do que eu. Se eu mencionava meu jogo favorito de raquetes[5], existia um silêncio geral, como se este fosse meu ponto fraco. Se eu reclamava de estar doente, era perguntado por que eu me deixei ficar. Se eu dizia que um ator tinha atuado bem em tal parte, a resposta era: existe uma opinião diferente em um dos jornais. Se qualquer alusão era feita aos homens de letras, existia um riso suprimido. Se eu contava uma estória engraçada, era difícil dizer se o riso era por minha causa ou por causa da narrativa. A esposa me odiava pelo meu rosto feio; os serventes porque eu não podia sempre dispô-los de tickets para o teatro e porque eles não podiam dizer exatamente o que um autor exatamente significava. Se um parágrafo parece diferente de tudo que já tinha escrito, eu achava que já estava pronto antes de mim e que eu iria ser amplamente criticado. Eu me submetia a tudo isto até ficar cansado, depois desisti.

Uma das misérias das pretensões intelectuais é que nove décimos daqueles com quem você travar contato não sabem se você é um impostor ou não. Eu temia que certas críticas anônimas fossem parar nas mãos dos serventes dos locais que eu freqüentava ou que meu chapeleiro ou meu sapateiro calhassem de lê-los, os quais possivelmente não podem dizer se elas são bem ou mau fundamentadas. A ignorância do mundo deixa qualquer um à mercê da sua malícia. Existem pessoas das quais você deseja uma boa opinião ou uma boa vontade, deixando de lado qualquer pretensão literária; e é duro perder, por um mau relato (o qual você não possui nenhum meio de retificar), o que você não pode ganhar por um bom. Depois de uma diatribe no Quarterly[6] (que é trazido por um cavalheiro que ocupa meu apartamento antigo no primeiro andar)[7] meu senhorio me trouxe sua conta (de algo pendente), e sobre a minha oferta de dá-lo a maior parte em dinheiro e um cheque para o resto, balançou a cabeça, e disse: que receava não poder aceitá-lo. Logo depois, a filha entra e, à minha cuidadosamente menção das circunstâncias para ela, respondeu gravemente: "que, de fato, seu pai esteve quase arruinado pelas contas." Esta é a pior situação de todas. É em vão para mim empenhar-me em explicar que a publicação na qual eu sou caluniado é um mero mecanismo do governo -- um órgão de uma facção política. Eles não sabem nada sobre isto. Sabem apenas que tais e quais imputações foram lançadas; e quanto mais eu tento destruí-las, mais eles pensam que existe alguma verdade nelas. Talvez as pessoas da casa eram Tories[8] ferrenhos -- algum tipo de agentes do governo. É para que eu esclareça a ignorância deles? Se eu disser que uma vez escrevi uma coisa chamada "Prince Maurice´s Parrot", e "Essay on the Regal Character"[9], o primeiro no qual uma alusão é feita a um nobre marquês, e no último a uma grande personalidade (assim pelo menos, me disseram, ela tinha sido considerada) e as quais o Sr. Croker tem instruções peremptórias para retaliar; eles não podem conceber qual conexão pode existir entre mim e tais distintas personalidades. Eu não agüento mais. Tal é a miséria das pretensões além de sua situação imediata; e que não são ajudadas por quaisquer símbolos externos, inteligíveis para toda a humanidade, de riqueza ou posição social!

A impertinência da admiração é dificilmente mais tolerável do que as demonstrações de desprezo. Eu conheci uma pessoa, que eu nunca tinha visto antes, me perseguindo durante toda a hora do jantar, perguntando quais artigos eu tinha escrito na Edinburg Review. Eu estava, pelo menos, envergonhado de responder aos meus esplêndidos pecados daquela maneira. Outros vão pegar algo que não é seu e dizer que eles estão certos de que mais ninguém poderia tê-lo escrito. Pela primeira frase eles sempre podem dizer seu estilo. Agora, eu odeio que meu estilo seja conhecido; como eu odeio toda idiossincrasia. Estes bajuladores obsequiosos não poderiam prestar-me pior elogio. Então, existem aqueles que se esforçam para ler tudo o que você escreve (o que é exagero); enquanto outros, mais provocadores, regularmente emprestam suas obras aos amigos assim que as recebem. Eles sabem, bastante bem, tuas noções sobre os diferentes assuntos, de ouvir você discursando sobre eles. Além do mais, eles têm em mais alta conta o seu caráter pessoal, que têm sobre seus escritos. Você explica as coisas melhor de uma maneira comum quando não está visando um efeito. Outros lhe dizem das falhas, que ouviram dizer, foram encontradas no seu último livro e que defendem seu estilo, em geral, da acusação de obscuridade. Um amigo, uma vez me contou, de uma disputa que ele teve com um chegado, este negou que eu sabia soletrar as palavras mais comuns. Estas são comunicações confidenciais confortáveis, às quais os autores, que possuem seus amigos e seus desculpadores, estão sujeitos. Um cavalheiro me disse, que uma moça objetou meu uso da palavra aprendedor[10], como má gramática. Ele disse que achou uma pena que eu não tivesse mais cuidado, mas que a moça talvez fosse preconceituosa, pois seu marido tinha um cargo no governo. Eu procurei pela palavra e a encontrei em um lema de Butler. Eu estava ressentido, e desejava que ele dissesse à tal crítica, que a falha não estava em mim, mas em alguém que tinha muito mais sabedoria, mais aprendizado e lealdade do que eu poderia pretender ter. Então, novamente, alguém vai escolher a coisa mais rasa que puder encontrar, para enchê-la com panegíricos; e outras lhe dizem (como meio de deixá-lo ver quão prestigiosa acham sua capacidade), que suas melhores passagens são falhas. Lamb tem uma habilidade de saborear (ou como ele diria, paladear[11]) o insípido. Leigh Hunt tem um truque de se afastar dos bocados saborosos que você põe em seu prato. Não existe o começar para algumas pessoas. Faça o que fizer, elas podem fazer melhor; encontre o sucesso que for, a boa opinião delas as mantém em melhor lugar, e correm ante o aplauso do mundo. Certa vez, mostrei a uma pessoa desta inclinação presunçosa (com não pouco triunfo, eu confesso) uma carta de um relato lisonjeiro que eu recebi de um celebrado Conde Stendhal, datada de Roma. Ela recebeu isto com um sorriso de indiferença e disse que tinha recebido ele mesmo uma carta de Roma no dia anterior, de seu amigo S------! Eu não pensei disto "pertinente ao assunto". Godwin pretende que eu nunca escrevi nada que valesse um centavo, somente meu "Answers to Vetus"[12] e que eu falhei completamente quando tentei escrever um ensaio, ou qualquer coisa que fosse mais curta.

O que alguém pode fazer em tais casos? Eu devo confessar uma fraqueza? O único contra-argumento que eu conheço a estas recusas e mortificações é, algumas vezes, uma nota acidental ou um sinal distintivo de um estranho. Eu sinto a força do digito mostrari [uma pessoa para apontar] de Horácio -- eu gosto de ser apontado na rua ou ouvir as pessoas perguntarem na quadra do Sr. Powell[13], quem é o Sr. Hazlitt? Isto é para mim uma extensão agradável da identidade pessoal de alguém. Seu nome, tão repetido, deixa um eco como uma música aos ouvidos: atiça o sangue como o som de um trombeta. Isto mostra que as outras pessoas estão curiosas para ver você: que elas pensam em você e sentem um interesse em você sem que você saiba. Isto é uma almofada sobre a qual recostar-se; um forro para sua pobre, estremecida, maltrapilha opinião sobre si mesmo. Você quer alguma coisa tão cordial aos espíritos exaustos e alívio da monotonia das especulações abstratas. Você é algo; e, por ocupar um lugar nos pensamentos dos outros, pensa menos desdenhosamente de si mesmo. Você está mais capaz para encarar os desafios do preconceito e da injúria vulgar. É agradável, desta maneira, ter sua opinião citada contra você e seus próprios ditos repetidos para você como coisas boas. Estava uma vez falando ao poço com um homem inteligente e criticando a performance do Sr. Knight de Filch[14]. "Ah!", ele disse, "o pequeno Simmons era o rapaz para interpretar este personagem." Ele adicionou, "existia uma observação, das mais excelentes, feita sobre sua atuação no 'Examiner' (penso que seja) -- Que ele pareceu como se tivesse uma forca em um olho e uma bela garota no outro."[15] Eu nada disse, mas estive de memorável bom humor o resto da noite. Eu raramente estive em companhia onde o jogo de Fives[16] fosse mencionado, mas alguém perguntou, no curso da conversa. "Deus, alguém já viu uma consideração sobre um tal de Cavanagh[17], que apareceu algum tempo atrás na maioria dos jornais? É sabido quem escreveu isso?" Estes são momentos tentadores. Eu triunfei sobre uma pessoa, de quem o nome eu não mencionarei, na seguinte ocasião. Sucedia de eu estar falando algo sobre Burke e estava expressando minha opinião dos seus talentos sem medir meus termos, quando este cavalheiro me interrompeu dizendo que ele pensava, de sua parte, que Burke tinha sido grandemente superestimado e, então, adicionou, em sua maneira descuidada: "Deus, você leu uma caracterização dele no último número da ------------ ?"; "Eu a escrevi!"[18] -- Eu não pude resistir à antítese, mas estava, depois, envergonhado de minha petulância momentânea. Contudo, ninguém que eu encontro jamais me poupa.

Algumas pessoas procuram e intrometem-se nas personalidades públicas, para, como parece ser, buscar suas falhas e, mais tarde, denunciá-las. Aparências são para isto, mas a verdade e um melhor conhecimento da natureza são contra esta interpretação do assunto. Sicofantas e bajuladores são, não intencionalmente, traiçoeiros e inconstantes. Eles estão inclinados a admirar desordenadamente a princípio e não encontrando um fornecedor constante de comida para seu tipo de apetite doentio, eles tomam nojo do objeto de sua idolatria. Para estarem quites com sua credulidade, eles afiam sua astúcia para espionar falhas e ficam deleitados ao descobrir que as respostas são melhores que seu desejavam primeiramente. É um caso de estudo, "animado, audível e cheio de ventilação". Eles possuem o órgão da admiração e o órgão do medo em níveis proeminentes. O primeiro requer novos objetos de admiração para satisfazer seus desejos inquietos; o segundo os fazem curvar-se ao poder aonde quer que seu critério mutante aporte, voluntariosos de bajular todos os partidos e prontos para trair qualquer um, com sua pura fraqueza e servilismo. Eu não acho que eles signifiquem nenhum mal: pelo menos, eu posso olhar para esta dissimulação com indiferença, em meu próprio caso particular. Eu tenho estado mais disposto a ressenti-lo quando eu o tenho visto ser praticado sobre outros, onde tenho sido mais capaz de julgar a extensão do prejuízo e a insensibilidade e a loucura idiota que isto revela.

Eu não acho que grandes realizações intelectuais são, de algum modo, recomendadas às mulheres. Elas as confundem e são uma divergência à questão principal. Se scholars falam com as damas do que eles entendem, suas ouvintes não são as mais sábias; se eles falam sobre outras coisas, eles apenas provam-se idiotas. A conversa entre Angelica e Foresight em "Love for Love"[19] é uma receita completa para todo este nonsense esgotante: enquanto ele está divagando sobre os signos do zodíaco, ela está na ponta dos pés na terra. Tem sido observado que os poetas não escolhem suas amantes muito sabiamente. Creio que não é escolha, mas necessidade. Se eles pudessem dar o lenço como o Grand Turk[20], imagino que veríamos escassas mortais, mas, ao invés, deusas, rodeando seus passos e cada uma exclamando, com a própria criada jônia de Lord Byron:

"Então tu deverás encontrar-me sempre a teu lado,

Agora e de hoje em diante, se o último puder ser!"

"So shalt thou find me ever at thy side,

Here and hereafter, if the last may be!"

Ah! não, estes são evidentes, ganhos por homens de mortal, e não de etérea, forma e daí em diante o poeta, em cuja mente as idéias de amor e beleza são inseparáveis, como os sonhos do sono, vão sobre a esperança desamparada da paixão e vestem a primeira Dulcinéia que terá compaixão dele, com todas as cores da fantasia. De que serve isto de reclamar, se a ilusão dura por toda a vida e o arco-íris ainda pinta sua forma na nuvem?

Existe um erro que eu desejaria, se possível, reparar. Os homens de letras, artistas e outros, não tendo êxito com as mulheres a uma certa posição na vida, pensam que a objeção é pelo desejo delas de fortuna e que subsistirão melhores chances se descerem mais baixo, onde apenas suas boas qualidades ou talentos serão apreciados. Oh! cada vez pior. A objeção é para eles mesmos, não para sua fortuna -- à sua abstração, à sua ausência mental, às suas noções ininteligíveis e românticas. Mulheres educadas podem ter um vislumbre do seu significado, podem ter uma pista ao seu caráter, mas a todas as outras eles são densas trevas. Se a amante sorri a seus avanços ideais, a criada rirá sem reservas; ela joga água em você, chama a irmã para ouvir, envia seu namorado para perguntar a você o que quis dizer, jogará a vila ou a casa contra você; será uma farsa, uma comédia, a brincadeira constante do ano e, então, o assassino se revelará. Scholars deviam ser jurados em Highgate.[21] Eles não são páreos para as arrumadeiras e para as serventes das hospedarias. Eles têm melhores chances com herdeiras ou damas de qualidade. Estas últimas têm altas noções de si mesmas que podem ajustar-se a alguns de seus epítetos! Elas estão acima da mortalidade, assim como seus pensamentos! Mas com a vida inferior, a artimanha, a ignorância e a trapaça, vocês não têm nada em comum. Quem quer que você seja, que pense poder fazer um compromisso ou uma conquista lá, pela boa natureza ou bom senso, esteja avisado por uma voz amigável e se retire a tempo desta disputa desigual.

Se, como eu disse acima, scholars não são páreos para arrumadeiras, por outro lado, cavalheiros não são páreos para canalhas. Os primeiros estão com a sua honra, eles agem com medida; os últimos aproveitam todas as vantagens e não têm nem idéias nem princípios. É embasbacante quão rápido alguém sem educação aprenderá a trapacear. Ele é impenetrável a qualquer raio do conhecimento liberal; seu entendimento é

"Não penetrável pelo poder de qualquer estrela"

"Not pierceable by power of any star"

mas é poroso a todos os tipos de truques, sofismas, estratagemas e garotices, pelos quais qualquer coisa pode ser conseguida. Sra. Peachum, de fato, diz, que para suceder na mesa de jogo, o candidato deve ter a educação de um nobre. Eu não sei o quanto este exemplo contradiz a minha teoria. Eu penso que é uma regra que aos homens de negócios não devem ser ensinadas outras coisas. Qualquer um estará quase certo de fazer dinheiro se não tem outra idéia em sua mente. Uma educação universitária, ou o estudo intenso da verdade abstrata, não habilitará o homem a conseguir barganhar, a levar a melhor sobre outro ou mesmo de resguardar-se de ser passado para trás. Como Shakespeare diz, que " ter uma boa aparência é efeito do estudo, mas ler e escrever vem por natureza": pois pode ser argumentado, que para ser um tratante basta um dom da sorte, mas para bancar o bobo e se favorecer é necessário ser um homem educado. Os melhores políticos não são aqueles que estão profundamente fundamentados na matemática ou nas ciências éticas. Os governantes se mantém no caminho da conveniência. Muitos homens têm sido dificultados de colocar sua sorte no mundo por um cultivo inicial de seu senso moral; e se arrependem disto no ócio durante o resto de sua vida. Um homem sagaz disse a meu pai, que ele não enviaria um filho seu para a escola de maneira alguma, pois ao ensiná-lo a dizer a verdade, ele o desqualificaria para ter sua vida no mundo!

É muito pouco necessário adicionar qualquer ilustração para provar que os mais originais e profundos pensadores não são sempre os escritores mais sucedidos e populares. Esta não é uma desvantagem meramente temporária; mas muitos grandes filósofos têm não apenas sido vigiados enquanto viviam, mas esquecidos assim que morreram. O nome de Hobbes é talvez suficiente para explicar esta asserção. Mas eu não desejo ir mais afundo nesta parte do assunto, que é óbvia nela mesma. Eu disse, creio, suficiente para sair o ar de paradoxo que paira sobre o título deste ensaio.


[1] [nota do trad.] Bedlam ou Bethlem Royal Hospital é um hospital um Londres que primeiramente foi uma instituição especializada em doentes mentais, significado este aludido aqui pelo autor.

[2] A saudação de Jake Cade para alguém que tentava louvar-se ao dizer que podia escrever e ler. -- ver Henrique VI - segunda parte.

[3] [nota do trad.] Correggio é como era conhecido o pintor italiano Antônio Allegri (Correggio, c.1489 - Idem, 5 de março de 1534). Foi um pintor da Renascença italiana, contemporâneo de Leonardo e Rafael, com obras nos principais museus de todo o mundo.

[4] [nota do trad.] Uma espécie de jogo de cartas.

[5] [nota do trad.] Raquetes (inglês: Rackets ou Racquets) é um esporte de raquete jogado basicamente nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido. Seu sistema de jogo e regras é semelhante a do squash, sendo freqüentemente chamado de hard rackets para distinguir-se do esporte formalmente nomeado squash rackets.

[6] [nota do trad.] O Quarterly Review foi um jornal literário e político cuja primeira edição foi publicada em Março de 1809 pelo editor John Murray, de Londres, Inglaterra.

[7] [nota do editor] end. Mr. Walker´s, 9, Southampton Buildings, Chacery Lane.

[8] [nota do trad.] Tory é o nome do antigo partido de tendência conservadora do Reino Unido, que reunia a aristocracia britânica.

[9] [nota do editor] Ensaios Políticos, 1819, pp. 51, 335

[10] [nota do trad.] No original learnerder.

[11] [nota do trad.] O verbo usado em inglês é palating. Seria o verbo correspondente a paladar, como este verbo não existe, vão-me escusar os leitores por improvisar.

[12] [nota do editor] Contribuída ao Mourning Chronicle em 1813

[13] [nota do editor] O campo de raquete na rua St. Martin.

[14] [nota do trad.] Aqui ele se refere ao personagem da The Beggar's Opera (Ópera dos Mendigos ou Ópera dos vagabundos) que é uma ópera de balada de 1728 dividida em um prólogo e três atos, com letras de John Gay e músicas de Pupusch.

[15] [nota do editor] "View of the English Stage", 1821, pp. 176-7. A passagem aparece na crítica do escritor à Ópera dos Mendigos.

[16] [nota do trad.] Fives é um esporte inglês que acredita-se deriva das mesmas origens que os outros esportes de raquetes. Em Fives, uma bola é jogada contra as paredes de uma quadra especial, usando mãos enluvadas ou limpas como se fossem raquetes.

[17] [nota do trad.] Parece que aqui se fala de Patrick Cavanagh, que foi um mártir caólico irlandês beatificado pelo Papa João Paulo II em 27 de setembro de 1992.

[18] [nota do editor] O "O Caráter de Burke" foi escrito, em 1807 ("Eloquence of the British Senate", 1807, ii, 206-17.) está reproduzida em "Winterslow, 1850" Ensaio xii.

[19] Peça de William Congreve (Bardsey, 24 de Janeiro de 1670 - Londres, 19 de janeiro de 1729), poeta e dramaturgo neoclássico inglês.

[20] O Grand Turk era o nome dado no Ocidente para o Sultão do Império Otomano, a referência aqui provavelmente diz respeito a esta passagem: Depois das visitas dos funcionários do estado, a porta da Sala do Manto Sagrado enfrente a Enderun seria fechada e a porta de ferro fechada para que a do Harém fosse aberta. Ao convite as esposas do sultão, suas favoritas, suas irmãs e suas filhas, cobrindo suas cabeças com lenços de oração, cada uma visitaria em cerimônia. Elas deixariam a sala depois de receber um lenço especial do sultão. Retirada e traduzida de: http://www.turkishairlines.com/en-INT/skylife/article.aspx?mkl=2097

[21] [nota do editor] Uma alusão ao uso jocoso (há muito tempo tornou-se obsoleto) de fazer alguém um freeman of Highgate (um homem livre de Highhate). [nota do trad.] O Juramento aos Cornos é um falso juramento que foi tradicionalmente dado aos visitantes de vários pubs em Londres no subúrbio de Highgate durante os séculos XVII, XVIII e XIX. O juramento consistia de uma série de declarações lidas por um balconista, confirmando a dedicação de alguém ao deboche e à alegria.

domingo, 5 de setembro de 2010

Leo Strauss - O que é Educação Liberal ?

por Leo Strauss

tradução: Leandro Diniz

fonte: http://www.ditext.com/strauss/liberal.html

Leo Strauss nasceu na Alemanha em 1899. Desde a vinda para os EUA em 1938 ele tem sido professor de ciência política e filosofia na New School for Social Research e professor de ciência política da Universidade de Chicago. Em 1954-55 ele estava como professor visitante de filosofia e ciência política na Hebrew University de Jerusalém. Entre os livros que o professor Strauss escreveu estão A Ciência Política de Hobbes, Direito Natural e História e Reflexões sobre Maquiavel.

Vocês adquiriram uma educação liberal. Eu vos congratulo pelo vosso feito. Se eu fosse intitulado para fazê-lo, eu vos elogiaria pelo vosso feito. Mas eu estaria contrário à obrigação a qual me impus se eu não complementasse minhas congratulações com um aviso. A educação liberal que vocês adquiriram evitará o perigo de que o aviso seja entendido como um conselho de desespero.

A educação liberal é uma educação em cultura ou direcionada à cultura. O produto final de uma educação liberal é um ser humano culto. "Cultura" (cultura) significava primariamente agricultura: o cultivo do solo e seus produtos, tomar conta do solo, melhorar o solo de acordo com sua natureza. Principalmente nos dias de hoje, "cultura" significa, por analogia, o cultivo da mente, os cuidados e melhorias das faculdades inatas da mente de acordo com a natureza da mente. Assim como o solo necessita de cultivadores do solo, a mente necessita de professores. Mas não é tão fácil encontrar professores como o é encontrar fazendeiros. Os próprios professores são, eles mesmos, alunos e devem ser alunos. Mas não pode haver uma regressão infinita: ultimamente devem existir professores que não são, por sua vez, alunos. Aqueles professores que não são, por sua vez, alunos, são mentes brilhantes ou, para evitar qualquer ambigüidade em um assunto de tal importância, as mentes mais brilhantes. Tais homens são extremamente raros. Nós não os encontramos, nenhum deles, em uma sala de aula. É até um pouco de boa sorte se existir um único que esteja vivo na época de qualquer pessoa. Para todos os propósitos práticos, alunos, de quaisquer graus de proficiência, têm acesso aos professores que não são, por sua vez, alunos -- às grandes mentes -- somente através dos grandes livros. A educação liberal consistirá, então, em estudar com cuidado próprio os grandes livros que as grandes mentes deixaram pra trás -- um estudo no qual os alunos mais experientes auxiliam os menos experientes, incluindo os iniciantes.

Esta não é uma tarefa fácil, como pareceria se considerássemos a fórmula que eu acabei de mencionar. Esta fórmula requer um longo comentário. Muitas vidas foram gastas e ainda podem ser gastas na escrita de tais comentários. Por exemplo, o que quer dizer o lembrete de que os grandes livros devem ser estudados "com cuidado próprio"? Neste momento eu só mencionei uma dificuldade que é óbvia para todos entre vocês: nem todas as grandes mentes nos falam as mesmas coisas em relação aos temas mais importantes; a comunidade das grandes mentes é separada pela discórdia e mesmo pelos vários tipos de discórdia. Quaisquer conseqüências mais sérias que isso possa desencadear, certamente desencadeia a conseqüência de que a educação liberal não pode, simplesmente, ser uma doutrinação. Eu mencionei outra dificuldade. "A educação liberal é uma educação em cultura." Em qual cultura? Nossa resposta é: cultura no sentido da tradição ocidental. Ainda, a tradição ocidental é apenas uma entre muitas culturas. Ao limitarmo-nos à cultura ocidental, não condenamos a educação liberal a um tipo de provincianismo, e não é o provincianismo incompatível com o liberalismo, a generosidade, a mente aberta , ou a educação liberal? Nossa noção de educação liberal não parece se encaixar nessa época que está alerta para o fato de que não existe a cultura da mente humana, mas uma variedade de culturas. Obviamente, se "cultura" está sujeita a ser usada no plural, então, não é a mesma coisa que "cultura", que é um singulare tantum, ou seja, que pode somente ser usado no singular. "Cultura" não é mais, como dizem as pessoas, uma coisa absoluta, mas tornou-se relativa. Não é fácil dizer o que significa a cultura sujeita de ser usada no plural. Como uma conseqüência dessa obscuridade, as pessoas sugeriram, explicita ou implicitamente, que "cultura" é qualquer padrão de conduta comum de qualquer grupo humano. Por isso, não hesitamos em falar de cultura do subúrbio ou as culturas das gangues juvenis, tanto as não delinqüentes quanto as delinqüentes. Em outras palavras, cada ser humano que não estiver em um asilo para lunáticos é um ser humano culto, pois ele participa de uma cultura. Nas fronteiras das pesquisas surge a questão de se não existem também culturas dos reclusos nos asilos para lunáticos. Se contrastarmos o uso atual de "cultura" com o seu significado original, teríamos algo como se alguém dissesse que o cultivo de um jardim pudesse consistir em serem espalhadas latas vazias de tinta e garrafas de whisky e papéis usados de vários tipos jogados ao redor, aleatoriamente no jardim. Alcançado este nível, percebemos que perdemos, de alguma maneira, nosso rumo.Deixe-nos, então, fazer um novo começo ao levantar a questão: o que pode a educação liberal significar aqui e agora?

A educação liberal é uma educação literária de um certo tipo: algum tipo de educação em letras ou através delas. Não há necessidade de levantar o caso da alfabetização; qualquer votante sabe que a democracia moderna permanece ou cai por conta da alfabetização. Para entender essa necessidade precisamos refletir sobre a democracia moderna. O que é a democracia moderna? Uma vez foi dito que a democracia é o regime que permanece ou cai por conta da virtude; uma democracia é um regime no qual todos ou a maioria dos adultos são homens de virtude, e desde que a virtude parece requerer a sabedoria, um regime no qual todos ou a maior parte dos adultos são virtuosos e sábios, ou a sociedade na qual todos ou a maior parte dos adultos desenvolveram sua razão a um alto grau, seja, a sociedade racional. Democracia, resumindo, significa ser uma aristocracia que ampliou-se em uma aristocracia universal. Antes da emergência da democracia moderna algumas dúvidas sentiam-se sobre se a democracia assim entendida seria possível. Como uma das duas grandes mentes entre os teóricos da democracia colocou: "se existisse um povo consistindo de deuses, ele governaria a si mesmo democraticamente. Um governo de tal perfeição não é apropriado para seres humanos." Esta permanente e baixa voz tornou-se, por agora, um auto-falante poderoso. Existe toda uma ciência -- a ciência que eu, entre milhares, creio ensinar: a ciência política --, que, para assim dizer, não possui outro tema que o contraste entre a acepção original de democracia, ou o que alguém pode chamar o ideal de democracia, e a democracia como se apresenta. De acordo com uma visão extremada, que é a predominante na profissão, o ideal de democracia era uma pura ilusão e que a única coisa que interessa é o comportamento das democracias e o comportamento dos homens nas democracias. A democracia moderna, tão longe de ser uma aristocracia universal, seria um governo do povo se não fosse pelo fato de que o povo não pode governar, mas é governado pelas elites, ou seja, grupos de homens que, por razões quaisquer, estão no topo ou têm uma grande chance de chegar no topo; uma das virtudes mais importantes requeridas para o suave funcionado da democracia, tanto quanto o povo está interessado, é dito ser a indiferença eleitoral, ou seja, falta de espírito público; não, de fato, o sal da terra, mas o sal da democracia moderna são aqueles cidadãos que não lêem mais nada que a página de esportes e a sessão de quadrinhos. Democracia não é, então, de fato, o governo do povo, mas a cultura de massa. A cultura de massa é uma cultura na qual pode ser apropriada pelas capacidades mais mesquinhas sem qualquer esforço intelectual ou moral e a um preço monetário baixo. Mas mesmo uma cultura de massa, e precisamente uma cultura de massa, requer um constante suprimento do que são chamadas: novas idéias, que são produtos do que são chamadas: as mentes criativas; mesmo comerciais musicais perdem seu apelo se não variam de tempo em tempo. Mas a democracia, mesmo que seja considerada a casca grossa que protege a macia cultura de massas, requer, a longo prazo, qualidades de um tipo inteiramente diferente: qualidade de dedicação, de concentração, de largura e profundidade. Então, entendemos mais facilmente o que a educação liberal significa aqui e agora. A educação liberal é um antídoto da cultura de massa, aos efeitos corrosivos da cultura de massa, à sua tendência interna de produzir nada mais do que "especialistas sem espírito ou visão e voluptuosos sem coração." A educação liberal é a escada pela qual tentamos subir da democracia de massa à democracia como significava originalmente. A educação liberal é o esforço necessário para fundar uma aristocracia dentro da sociedade da democracia de massa. A educação liberal faz lembrar aqueles membros da democracia de massa, que têm ouvidos a escutar, da grandeza humana.

Alguém pode dizer que esta noção de educação liberal é meramente política, que dogmaticamente assume a bondade da democracia moderna. Não podemos virar as costas a sociedade moderna? Não podemos retornar para a natureza, a vida das tribos analfabetas? Não somos esmagados, nauseados e degradados pela massa de material impresso, o cemitério de tantas florestas lindas e magistrais? Não é suficiente dizer que isto é mero romantismo, que não podemos hoje retornar para a natureza: não podem as gerações vindouras, depois de um cataclismo causado pelo homem, seres compelidas a viver em tribos analfabetas? Não serão nossos pensamentos sobre as guerras termo-nucleares serem afetados por tais perspectivas? Certo é, que os horrores da cultura de massa (que inclui passeios guiados na natureza inteira) apresentam inteligível a ânsia para um retorno à natureza. Uma sociedade iletrada no seu melhor é uma sociedade governada por um ancestral idoso personalizado que traça aos fundadores originais, deus ou filhos de deuses ou alunos de deuses; desde que não existem letras em tais sociedades, os herdeiros mais recentes não podem estar em contato direto com os fundadores originais; eles não podem saber se os pais ou avós não desviaram do que os fundadores originais significaram; por isso, uma sociedade iletrada não pode agir consistentemente sobre seus princípios de que o melhor é o mais velho. Somente as letras que vieram dos fundadores podem tornar possível para os fundadores falar diretamente aos seus últimos herdeiros. É, então, auto-contraditório desejar retornar ao analfabetismo. Estamos compelidos a viver com livros. Mas a vida é muito curta para viver com qualquer livro, mas apenas com os maiores. A este respeito, tanto quanto a alguns outros, fazemos bem se tomamos como nosso modelo aquele entre as grandes mentes, que por conta de seu bom senso são as mediadoras entre nós e as melhores mentes. Sócrates nunca escreveu um livro mas ele leu livros. Deixe-me citar uma declaração de Sócrates que diz quase tudo que há para ser dito sobre nosso assunto, com a nobre simplicidade e a tranqüila grandeza dos anciãos. "Assim como outros são satisfeitos por um bom cavalo ou cão ou pássaro, eu mesmo sou satisfeito a um grau ainda mais alto por bons amigos... E o tesouro dos antigos homens sábios que o deixaram para trás ao escrevê-los em livros, eu os abro e vou através deles junto com meus amigos, e se vemos algo bom, nós o pegamos e consideramos isso um grande ganho se nos tornamos úteis uns para os outros." O homem que relatou essa fala, adiciona um lembrete: "Quando eu ouço isto, parece a mim tanto que Sócrates foi abençoado quanto que ele estava liderando aqueles que ouviam a ele à uma perfeita nobreza." Este relato é imperfeito desde que nada nos conta do que fez Sócrates a respeito destas passagens nos livros dos antigos homens sábios de que ele não sabia nem se eram homens bons. De outro relato sabemos que Eurípides deu uma vez a Sócrates o escrito de Heráclito e, então, o perguntou sua opinião sobre o escrito. Sócrates disse: "O que eu entendi é grande e nobre; creio que é também verdade do que eu não entendi; mas alguém precisa, certamente, para entender este escrito, algum tipo especial de mergulho."

Educação para a perfeita nobreza, para a excelência humana, a educação liberal consiste em lembrar ao estudante da excelência humana, da grandeza humana. De qual maneira, por quais meios a educação liberal nos lembra da grandeza humana? Não podemos pensar suficientemente alto o que a educação liberal tende a significar. Nós enfrentamos a sugestão de Platão de que a educação no sentido mais alto é filosofia. A filosofia é a busca pela sabedoria ou a busca pelo conhecimento concernente às mais importantes, as mais altas, ou as mais compreensivas das coisas; tal conhecimento, ele sugere, é a virtude e a felicidade. Mas a sabedoria é inacessível aos homens e, por isso, a virtude e a felicidade serão sempre imperfeitas. A despeito disso, o filósofo, quem, como tal, não simplesmente sábio, é declarado ser o único rei verdadeiro; é declarado possuir todas as excelências as quais a mente do homem é capaz, no grau máximo. Disto devemos delinear a conclusão que nós não podemos ser filósofos -- que não podemos adquirir a maior forma de educação. Não devemos ser enganados pelo fato de que conhecemos pessoas que dizem que são filósofos. Pois estas pessoas empregam uma expressão vazia que é talvez necessitada por conveniência administrativa. Freqüentemente querem dizer, meramente, que eles são membros dos departamentos de filosofia. E é absurdo esperar que membros dos departamentos de filosofia sejam filósofos; como é esperar que membros dos departamentos de arte sejam artistas. Não podemos ser filósofos, mas podemos amar a filosofia; podemos tentar ser filósofos. Este filosofar consiste, em qualquer nível e em primeiro lugar, em ouvir às conversações entre os grandes filósofos ou, mais genericamente e mais cautelosamente, entre as grandes mentes, e, a partir daí, em estudar os grandes livros. As melhores mentes a quem devemos ouvir são, de qualquer maneira, exclusivamente as grandes mentes do Ocidente. É meramente uma necessidade infortuna que nos previne de ouvir as grandes mentes da Índia e da China: não entendemos a sua linguagem, e não podemos aprender todas as línguas. Para repetir, a educação liberal consiste em ouvir à conversação entre as grandes mentes. Mas aqui somos confrontados com a dificuldade gigantesca de que esta conversação não pode acontecer sem a nossa ajuda -- que, de fato, nós devemos ocasionar esta conversação. As grandes mentes pronunciam monólogos. [cf. com a declaração de Croce de que para ler um filósofo você há de saber contra quem ele está polemizando] Devemos transformar seus monólogos em um diálogo, seu "lado a lado" em "ajuntado." As maiores mentes proferem monólogos mesmo quando escrevem diálogos. Quando olhamos os diálogos platônicos, observamos que nunca existe um diálogo entre mentes de alta ordem: todos os diálogos platônicos são diálogos entre um homem superior e homens inferiores a ele. Platão, aparentemente, sentiu que alguém não pode escrever um diálogo entre dois homens de alta ordem. Então, devemos fazer algo que as grandes mentes foram incapazes de fazer. Deixe-nos encarar esta dificuldade -- uma dificuldade tão grande que parece condenar a educação liberal como uma absurdidade. Desde que as grandes mentes contradizem a si mesmas em relação aos assuntos mais importantes, elas nos compelem a julgar seus monólogos; não podemos aceitar em confiança o que qualquer um deles diz. Por outro lado, não podemos mais que notar que não existem juízes competentes. Este estado de coisas é ocultado de nós por um número de fáceis ilusões. Acreditamos, de alguma maneira, que nosso ponto de vista é superior, maior do que aqueles das grandes mentes -- tanto por que nosso ponto de vista é aquele de nosso tempo, e nosso tempo sendo mais tardio do que o tempo das grandes mentes, pode ser presumido ser superior ao seus tempos; ou tanto por que cremos que cada uma das grandes mentes estava certa do seu ponto de vista, mas não, como ele afirma, simplesmente certo: sabemos que não pode existir uma simples visão verdadeira substantiva, mas somente uma visão verdadeira formal; esta visão formal consiste na intuição de que toda visão compreensiva é relativa a uma perspectiva específica, ou que todas as visões compreensivas são mutuamente exclusivas e nenhuma pode ser simplesmente verdadeira. As fáceis ilusões que ocultam de nós nossa verdadeira situação, todas remontam a isto, que nós somos, ou podemos ser, mais sábios do que os homens mais sábios do passado. Somos, então, induzidos a fazer a parte não de dóceis e atentos ouvintes, mas de empresários ou domadores de leões. Ainda devemos encarar nossa incrível situação, criada pela necessidade de tentarmos ser mais do que ouvintes atentos e dóceis, ou seja, juízes, e ainda não somos juízes competentes. Como parece a mim, a causa deste situação é que perdemos de todo as tradições de autoridade nas quais podíamos confiar, o nomos que nos deu orientação competente, por que nossos professores diretos e os professores dos professores acreditavam na possibilidade de uma simples sociedade racional. Cada um de nós aqui está compelido a achar sua própria orientação pelos seus próprios poderes, por mais defeituosos que eles possam ser.

Não temos outro conforto do que aquele inerente a esta atividade. Filosofia, aprendemos, deve estar sobre seus guardas contra o desejo de ser edificante -- filosofia pode somente ser internamente edificante. Não podemos exercer nosso entendimento sem que de tempos em tempos entendamos algo de importante; e este ato de entendimento pode ser acompanhado pela consciência do nosso entendimento, pelo entendimento do entendimento, pela noesis noeseos, e isto é uma experiência tão alta, tão pura, tão nobre que Aristóteles pode subscrevê-la ao seu Deus. Esta experiência é inteiramente independente de se o que nós entendemos primeiramente é agradável ou desagradável, justo ou feio. Isto nos leva a perceber que todos os maus são, em um sentido, necessário se há de existir o entendimento. Isso nos habilita a aceitar todos os males que nos sucedem e que podem muito bem partir nossos corações, percebemos que o verdadeiro chão da dignidade do homem e, com isso, a bondade do mundo, entendamos isto como criada ou incriada, que é o lar do homem por que é o lar da mente humana.

A educação liberal, que consiste em constante interação com as grandes mentes, é um treino na mais alta forma de modéstia, para não dizer de humildade. É, ao mesmo tempo, um treinamento em audácia: ela demanda de nós a quebra completa com o barulho, a pressa, a irreflexão, a vulgaridade da Feira das Vaidades dos intelectuais, assim como de seus inimigos. Ela demanda de nós a audácia implícita na resolução de aceitar as visões como meras opiniões, ou a considerar as opiniões médias como opiniões extremas que estão, no mínimo, tão prováveis de erro quanto as opiniões mais estranhas ou menos populares. A educação liberal é a liberação da vulgaridade. Os gregos possuem uma bela palavra para "vulgaridade"; eles a chamam apeirokalia, falta de experiência das coisas belas. A educação liberal nos supre com a experiência nas coisas belas.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Como deve alguém ler um livro?

Como deve alguém ler um livro?

Virginia Wolf - The Common Reader, cap. 22

http://ebooks.adelaide.edu.au/w/woolf/virginia/w91c2/index.html

Tradução: Leandro Diniz

Em primeiro lugar, eu quero enfatizar o ponto de interrogação no fim do meu título. Mesmo que eu consiga responder a pergunta a mim mesma, a resposta deve se aplicar apenas a mim e não a você. O único conselho, de verdade, que uma pessoa pode dar a outra sobre leitura é não ter nenhum conselho, a seguir seus próprios instintos, a utilizar sua própria razão, a chegar a conclusões próprias. Se isso estiver acordado entre nós, então me sinto livre para colocar umas poucas idéias e sugestões, pois você não vai permitir que elas restrinjam essa independência que é a qualidade mais importante que um leitor pode possuir. Até porque, quais leis podem ser baixadas sobre livros? A batalha de Waterloo foi certamente lutada num certo dia; mas é Hamlet uma peça melhor que Rei Lear? Ninguém pode dizer. Cada um deve decidir essa questão por si mesmo. Admitir autoridades, mesmo que adornadas com peles e mantos, em nossas bibliotecas e deixá-las nos dizer como ler, o que ler, qual valor depositar sobre o que nós lemos, é destruir o espírito de liberdade que é o ar puro desses santuários. Em qualquer outro lugar podemos nos curvar diante das convenções e leis – lá nós não temos.

Mas para desfrutar a liberdade, se a platitude é perdoável, nós devemos com certeza controlarmo-nos. Nós não podemos gastar nossas forças, ignorante e desesperadamente, molhando metade da casa a fim de regar apenas um arbusto de rosas; nós devemos treiná-las, exata e poderosamente, aqui no lugar mais importante. Esta é uma das primeiras dificuldades que nós encontramos numa biblioteca. O que é “lugar mais importante”? Lá, pode muito bem parecer, que nada mais é do que uma conglomeração e um agregado de confusão. Poemas e novelas, histórias e memórias, dicionários e livros de citações; livros escritos em todas as línguas de homens e mulheres de todos os temperamentos, raças e idades brigando uns contra os outros nas prateleiras. E lá fora o zurro do burro, as mulheres fofocando na bomba, o potro galopando no campo. Por onde devemos começar? Como nós podemos trazer ordem a essa multitude caótica e conseguirmos o mais vasto e profundo prazer do que lemos?

É simples demais dizer que desde que livros possuem classes – ficção, biografia, poesia – nós devemos separá-los e extrair de cada um o que é certo de que cada um possa nos dar. Ainda poucas pessoas exigem dos livros o que os livros podem nos dar. Comumente nós vamos aos livros com a mente embaçada e dividida, exigindo da ficção o que daquilo pode ser verdade, da poesia o que pode ser falso, das biografias o que pode ser elogioso, da história o que pode reforçar nossos próprios preconceitos. Se nós pudéssemos banir todos esses preconceitos quando lêssemos, qual não seria um admirável início. Não tente dar ordens para seu autor, mas tente tornar-se nele. Seja seu companheiro de trabalho e ajudante. Se você hesitar, e fizer reservas e criticar logo de cara, você está prevenindo a si mesmo de obter todos os valores possíveis daquilo que você lê. Mas se você abrir sua mente com a maior amplitude possível, então sinais e dicas de sutileza quase imperceptível, dos giros e voltas das primeiras sentenças, lhe colocarão na presença de um ser humano como nenhum outro. Impregne-se disso, familiarize-se com isso, e logo você verá que o seu autor está lhe dando, ou está tentando lhe dar, algo muito mais definido. Os trinta e dois capítulos de uma novela – se nós considerarmos como ler uma novela antes – são uma tentativa de fazer algo tão fabricado e controlado quanto um edifício: mas palavras são mais impalpáveis que tijolos, a leitura é um processo mais longo e complicado que ver. Talvez o caminho mais rápido para entender os elementos do que um novelista está fazendo não é ler, mas escrever; fazer seu próprio experimento com os perigos e dificuldades das palavras. Relembre, então, algum evento que deixou uma impressão distinta em você – como que na esquina da rua, talvez, você passou por duas pessoas conversando. Uma árvore balançou, uma luz elétrica dançou, o tom da conversa era cômico, mas também trágico; uma visão geral, uma concepção completa, aparece contida naquele momento.

Mas quando você tenta reconstruir isso em palavras, você verá que isso se quebra em milhares de impressões conflituosas. Algumas precisam ser subjugadas; outras enfatizadas; no processo você perderá, provavelmente, todo alcance sobre a própria emoção. Então se volte das suas páginas borradas e sujas para as páginas inicias de um grande novelista – Defoe, Jane Austen, Hardy. Agora você estará melhor capacitado para apreciar sua maestria. Não é meramente que nós estejamos em presença de uma pessoa diferente – Defoe, Jane Austen ou Thomas Hardy – mas que nós estaremos vivendo num mundo diferente. Aqui, em Robinson Crusoe, nós andamos laboriosamente por uma verdadeira auto-estrada; uma coisa acontece depois de outra; o fato e a ordem do fato são suficientes. Mas se o ar livre e a aventura significam tudo para Defoe eles não significam nada para Jane Austen. Dela é a sala de visitas, e as pessoas falando, e pelos muitos espelhos de suas falas revelando suas personalidades. E se, quando tivermos nos acostumado com a sala de visitas e seus reflexos, nos voltarmos para Hardy, nós somos girados mais uma vez. As terras inférteis estão ao nosso redor e as estrelas sobre nossas cabeças. O outro lado da mente é agora exposto – o lado negro que vem, sobretudo na solidão, não o lado luminoso que aparece na companhia. Nossas relações não se dão com as pessoas, mas com a Natureza e o destino. Ainda diferentes como são esses mundos, cada um é consistente consigo mesmo. O fabricante de cada um é cuidadoso para observar as leis de sua própria perspectiva, e qual seja a enorme tensão que possam colocar sobre nós, eles nunca vão nos confundir, assim como os escritores menores geralmente fazem, ao introduzir dois tipos diferentes de realidades no mesmo livro. Assim ir de um grande novelista para outro – de Jane Austen a Hardy, de Peacook a Trollope, de Scott a Meredith – é como ser arrebatado e desarraigado; ser jogado desse jeito e depois daquele. Ler uma novela é uma difícil e complexa arte. Você deve ser capaz não somente de uma grande sutileza de percepção, mas de grande audácia de imaginação, se for fazer uso de tudo o que o novelista – o grande artista – pode lhe dar.

Mas uma espiada na companhia heterogênea da prateleira lhe mostrará que escritores muito raramente são “grandes artistas”; muito mais freqüente um livro não faz questão alguma de ser uma obra de arte. Essas biografias e autobiografias, por exemplo, vidas de grandes homens, de homens, há muito, mortos ou esquecidos, que estão lado a lado com as novelas e poemas, nós deveríamos nos recusar lê-las porque não são “arte”? Ou devemos ler em primeiro lugar para satisfazer aquela curiosidade que nos acomete de vez em quando ao passarmos a noite defronte uma casa, e hesitar, onde as luzes estão acesas e as cortinas ainda não cerradas, e cada andar da casa nos mostra uma seção diferente da vida do ser humano? Então nós somos consumidos com uma curiosidade sobre a vida dessas pessoas – os serventes fofocando, os senhores jantando, a garota se arrumando para uma festa, a mulher idosa à janela no seu tricô. Quem são eles, o que são eles, quais são seus nomes, suas ocupações, seus pensamentos, e suas aventuras?

Biografias e memórias respondem a tais perguntas, alegram inúmeras dessas casas; elas nos mostram pessoas fazendo as coisas do dia a dia, trabalhando, falhando, tendo sucesso, comendo, odiando, amando, até a sua morte. E algumas vezes na medida em que olhamos, a casa esmaece e os trilhos de ferro desaparecem e nós estamos então no mar; estamos caçando, velejando, pescando; estamos entre selvagens e soldados; estamos tomando parte nas grandes campanhas. Ou se nós gostamos de permanecer aqui na Inglaterra, em Londres, mesmo assim a cena muda; a rua se estreita, a casa fica menor, apertada, em formato de diamante, e malcheirosa. Nós vemos um poeta, Donne, conduzido por tal casa, pois as paredes são tão finas que quando as crianças choram suas vozes cortam através delas. Nós podemos segui-lo, entre os caminhos que estão nas páginas de livros, para Twickenham; para Lady Bedford´s Park, um famoso lugar de encontro de nobres e poetas; e então girar nossos passos em direção a Wilton, a grande casa sob o monte, e ouvir Sidney ler a Arcadia para sua irmã; e passear entre aqueles pântanos e ver aquelas garças que figuram naquele famoso romance; e novamente viajar ao norte com aquela outra Lady Pembroke, Anne Clifford, para sua charneca selvagem, ou mergulhar na cidade e controlar nossa alegria na visão de Gabriel Harvey em seu terno negro de veludo conversando sobre poesia com Spencer. Nada é mais fascinante que tatear e tropeçar no esplendor e trevas da Londres Elizabetana. Mas lá não existe a permanência. Os Temples e os Swifts, os Harleys e o St. John nos acenam; hora depois de hora pode-se passar desembaraçando suas querelas e decifrando seus personagens; e quando nos cansamos deles podemos ir, passando pela dama de preto usando diamantes, a Samuel Johnson e Goldsmith e Garrick; ou cruzar o canal, se preferirmos, e encontrar Voltaire e Diderot, Madame Du Deffand; e então voltar à Inglaterra e Twickenham – como certos lugares se repetem e certos nomes! – onde uma vez Lady Bedford teve seu Parque e Pope lá viveu depois, para a casa de Walpole na Strawberry Hill. Mas Walpole nos introduz a tais abundantes novos conhecidos, existem tantas casas a visitar e sinos a badalar que nós podemos hesitar por um momento, nos degraus da entrada de Miss Berry, por exemplo, quando observamos, lá vem Thackeray; ele é o amigo da mulher que Walpole amou; assim meramente indo de amigo a amigo, de jardim a jardim, de casa a casa, nós passamos de um fim da literatura inglesa a outro e acordamos para nos achar novamente aqui no presente, se nós pudermos então diferenciar este momento de todos que passaram antes. Isto, então, é um dos jeitos nos quais podemos ler essas vidas e cartas; podemos fazê-los acender as muitas janelas do passado; nós podemos assistir os mortos famosos em seus hábitos familiares e imaginar às vezes que estamos bem perto e podemos surpreender seus segredos, e às vezes podemos tirar uma peça ou um poema que eles escreveram e ver se a sua leitura muda na presença do autor. Mas isso, de novo, desperta outra questão. Quanto, devemos nos perguntar, é um livro influenciado pela vida do autor – quanto é seguro deixar o homem interpretar o autor? Quanto devemos resistir ou abrimo-nos às simpatias e antipatias que o próprio homem despertou em nós – tão sensíveis são as palavras, tão receptivo do caráter do autor? Estas são questões que nos pressionam quando nós lemos vidas e cartas, e devemos responder por nós mesmos, pois nada pode ser mais fatal que ser guiado pelas preferências dos outros em assunto tão pessoal.

Mas também podemos ler tais livros com outro propósito, não para trazer luz à literatura, não para se tornar familiarizado com pessoas famosas, mas a fim de refrescar e exercitar nossos próprios poderes criativos. Não existe uma janela aberta do lado direito da estante de livros? Quão delicioso é parar de ler e olhar pela janela! Como é estimulante a cena, na sua inconsciência, na sua irrelevância, no seu movimento perpétuo – os potros galopando ao redor do campo, a mulher enchendo o balde no poço, o burro jogando sua cabeça para trás e emitindo seu longo, amargo lamento. A grande parte de qualquer biblioteca não é nada mais que o registro de tais momentos fugazes nas vidas dos homens, mulheres, e burros. Toda literatura, na medida em que envelhece, tem sua acumulação de momentos perdidos, seus registros de momentos desaparecidos e vidas esquecidas contadas com acentuações vacilantes e débeis que se extinguiram. Mas se você se permitir às delicias da leitura desses lixos você será surpreendido, de fato estará sujeito, pelas relíquias da vida humana que foram invocadas para mofar. Pode ser uma carta – mas que visão isso dá! Podem ser poucas sentenças – mas que imagens sugerem! Algumas vezes toda uma estória virá unificada com tal belo humor e emoção e completude que parecerá como se um grande novelista tivesse trabalhado, ainda que seja somente um velho ator, Tate Wilkinson, lembrando a estranha estória do Capitão Jones; é somente um jovem subalterno servindo a Arthur Wellesley e se apaixonando com a bela garota em Lisboa; é somente Maria Allen deixando cair sua costura na sala de visitas vazia e suspirando como que desejara que tivesse aceitado o bom conselho de Dr. Burney e tivesse fugido com seu Rishy. Nada disso tem nenhum valor; é insignificante ao extremo; ainda quão impressionante é agora e novamente ir através dos restos e achar anéis e tesouras e narizes quebrados enterrados no vasto passado e tentar juntá-los enquanto o potro galopa ao redor do campo, a mulher enche o balde no poço, e o burro zurra.

Mas nós cansamos de leitura frívola com o passar do tempo. Cansamos de procurar pelo que é necessário a completar as meias-verdades que é tudo o que os Wilkinsons, os Bunburrys, e as Maria Allens são capazes de nos oferecer. Eles não possuem o poder artístico de dominar e eliminar; eles não poderiam contar toda a verdade mesmo sobre suas próprias vidas; eles desfiguraram a estória que poderia ser tão formosa. Fatos são tudo o que eles podem nos oferecer, e fatos são uma forma bem inferior de ficção. Então o desejo cresce em nós por termos de lidar com meios-relatos e aproximações; para cessar de procurar pelos ínfimos tons da personalidade humana, para desfrutar as maiores abstrações, a pura verdade da ficção. Então nós criamos o temperamento, intenso e generalizado, sem conhecimento dos detalhes, mas enfatizado por alguma regularidade, um pulso recorrente, de que a expressão natural é a poesia; e está no tempo de ler poesia quando nós estamos praticamente impelidos a escrevê-la.

Western wind, when wilt thou blow?

The small rain down can rain.

Christ, if my love were in my arms,

And I in my bed again!

(Tradução livre:

Vento do oeste, quando tu ventarás?

A pequena garoa pode chover

Cristo, se meu amor estive em meus braços,

E eu na minha cama novamente!)

O impacto da poesia é tão forte e direto que no momento não existe outra sensação exceto aquela do próprio poema. Que profundezas profundas visitamos então – como repentina e completa é nossa imersão! Não existe nada aqui para se apoderar; nada para apoiar nossa viagem. A ilusão da ficção é gradual; seus efeitos são preparados; mas quem quando lê essas quatro linhas se detém a se perguntar quem as escreveu; ou traz à mente o pensamento da casa de Donne ou da secretária de Sidney; ou os captura no intrincado passado e na sucessão das gerações? O poeta é sempre nosso contemporâneo. Nosso ser naquele momento é centrado e constringindo, como em um choque violento de emoção particular. Subseqüentemente, é verdade, a sensação começa a se espalhar em círculos maiores na nossa mente; sentidos remotos são alcançados; isto começa a soar e comentar e ficamos cientes dos ecos e reflexos. A intensidade da poesia cobre uma imensa gama de emoções. Temos somente que comparar a força e o imediatismo de

I shall fall like a tree, and find my grave

Olny remembering that I grieve,

(Tradução livre:

Tombarei como uma árvore, e acharei meu túmulo

Lembrando somente que sofro,)

com a modulação ondulatória de

Minutes are numbered by the fall of sands,

As by an hour glass; the span of time

Doth waste us to our graves, and we look on it;

An age of pleasure, reveled out, comes home

At last and ends in sorrow; but the life,

Weary of riot, numbers every sand,

Wailing in sighs, until the last drop down,

So to conclude calamity in rest,

(Tradução livre:

Minutos são numerados pelo cair das areias,

Como por uma hora de vidro; a duração do tempo

Faz-nos terminar em nossos túmulos, e os observamos;

Uma era de prazer, revelada, volta para o lar

Finalmente e termina em aflição; mas a vida,

Exausta de confusão, numera cada areia,

Lamenta em suspiros, até a queda da última gota,

Para concluir a calamidade no descanso,)

ou colocar a calma meditativa de

whether we be young or old,

Our destiny, our being’s heart and home,

Is with infinitude, and only there;

With hope it is, hope that can never die,

Effort, and expectation, and desire.

And something evermore about to be,

(Tradução livre:

se somos jovens ou velhos,

Nosso destino, nosso ser é coração e o lar,

É com infinitude, e somente lá;

Com esperança é, esperança nunca pode morrer,

Esforço, e expectativa, e desejo.

E algo mais sempre está pra ser,)

junto a amabilidade completa e exaustiva de

The moving Moon went up the sky,

And no where did abide:

Softly she was going up,

And a star or two beside –

(Tradução livre:

A Lua dançante subiu no céu,

E em lugar algum permaneceu:

Suavemente ela foi subindo,

E uma ou duas estrelas ao lado –)

ou a fantasia esplendida de

And the woodland haunter

Shall not cease to saunter

When, far down some glade

Of the great world’s burning,

One soft flame upturning,

Seems, to his discerning,

Crocus in the shade.

(Tradução livre:

E o assombrador da floresta

Não cessará de vaguear

Quando, longe abre uma clareira

Da maior queimadura do mundo,

Uma chama suave se vira,

Parece, a sua distinção,

Nas sombras um açafrão.)

para nós refletirmos sobre a variedade da arte do poeta; seu poder de fazer-nos de uma só vez atores e espectadores; seu poder de correr a mão pelo personagem como se fosse uma luva, e ser Falstaff ou Lear; seu poder de condensar, de expandir, a expressar, uma vez e pra sempre.

“Nós só temos que comparar” – com essas palavras o gato está fora do saco, e a verdadeira complexidade da leitura é admitida. O primeiro processo, receber impressões com a mais alta compreensão, é somente metade do processo da leitura; que precisa ser completado, se queremos obter o prazer total de um livro, por outro. Devemos passar o julgamento sobre essas impressões inumeráveis; devemos transformar essas formas transitórias em uma que seja mais rígida e duradoura. Mas não diretamente. Espere pela poeira da leitura assentar; para o conflito e os questionamentos a se amarrarem; ande, converse, puxe as pétalas mortas de uma rosa, ou adormeça. Então repentinamente sem o nosso desejo para tal, pois assim é que a natureza nos conduz nessas transições, o livro vai retornar, mas diferentemente. Ele flutuará ao topo da mente como um todo. E o livro como um todo é diferente do livro recebido no momento em frases separadas. Detalhes agora se encaixam nos seus lugares. Nós vemos a forma do começo ao fim; seja isto um celeiro, um curral de porcos, ou uma catedral. Então agora podemos comprar livro com livro como comparamos edifícios com edifícios. Mas esse ato de comparação significa que nossa atitude mudou; não somos mais amigos do escritor, mas seus juízes; e assim como não podemos ser tão simpáticos como amigos, assim como juízes não podemos ser muito severos. Não são eles criminosos, livros que gastaram nosso tempo e simpatia; não são eles os mais insidiosos inimigos da sociedade, corruptores, poluentes, os escritores de falsos livros, livros fingidos, livros que enchem o ar com decadência e doença? Deixe-nos então ser severos em nossos julgamentos; deixe-nos comparar cada livro com os maiores da sua espécie. Ali eles mantém na mente as formas dos livro que lemos solidificados pelos julgamentos que fazemos deles – Robbinson Crusoe, Emma, The Return of Native. Compare as novelas com esses – mesmo a mais recente e mínima das novelas tem o direito de ser comparada com as melhores. E assim com a poesia – quando a intoxicação do ritmo tiver abrandado e o esplendor das palavras tiver murchado uma forma visionária retornará a nós e esta precisa ser comparada com Lear, com Fedra, com O Prelúdio; ou se não com esses, com quaisquer que sejam os melhores ou pareçam a nós serem os melhores da sua espécie. E devemos ter certeza que a renovação da nova poesia e ficção é sua mais superficial qualidade e que nós temos de alterar levemente, e não a remodelar, os padrões com que julgamos os antigos.

Seria tolo, então, pretender que a segunda parte da leitura, o julgamento, a comparação, é tão simples quanto à primeira – abrir a mente amplamente para o aglomerado rápido de inumeráveis impressões. Para continuar lendo sem o livro diante de você, para reter uma forma-sombra contra outra, para ter lido com amplitude suficiente e com suficiente entendimento para fazer tais comparações vivas e iluminadoras – esta é a dificuldade; é ainda mais difícil ir mais a fundo e dizer, “Não somente esse livro é desse tipo, mas ele é desse valor; aqui ele falha; aqui ele sucede; isto é ruim; aquilo é bom.” Para conseguir realizar essa parte, da obrigação do leitor, é necessário tal imaginação, intuição, e aprender que é difícil conceber uma mente qualquer suficientemente com qualidade e habilidade; impossível para o mais autoconfiante achar mais do que as sementes de tais poderes em si mesmo. Poderia ser sábio, então, ceder essa parte da leitura e permitir que os críticos, as autoridades adornadas com peles e mantos da biblioteca, decidam a questão do valor absoluto do livro para nós? Ainda, quão impossível! Nós podemos alargar o valor da simpatia; podemos tentar afundar nossa própria identidade ao lermos. Mas sabemos que não podemos simpatizar inteiramente ou nos imergir inteiramente; sempre há um demônio em nós que sussurra, “Eu odeio, eu amo,” e não podemos silenciá-lo. De fato, é precisamente por que odiamos e amamos que nossa relação com poetas e novelistas é tão íntima que achamos a presença de outra pessoa intolerável. E mesmo se os resultados forem abomináveis e nossos julgamentos estejam errados, ainda sim é nosso gosto, o nervo da sensação que envia choques através de nós, é o nosso chefe iluminador; nós aprendemos através do sentimento; não podemos suprimir nossa própria idiossincrasia sem empobrecê-la. Mas na medida em que o tempo passa talvez possamos treinar nosso gosto; talvez possamos submetê-lo a certo controle. Quando ele tiver se alimentado abundante e gulosamente de livros de todos os tipos – poesia, ficção, história, biografia – e tiver parado de ler e olhado por longos espaços sobre a variedade, a incongruência do mundo dos vivos, nós devemos achar que ele está mudando um pouquinho; ele não é tão insaciável, ele é mais refletivo. Isto irá começar a trazer-nos não meros julgamentos de livros particulares, mas irá nos dizer que existe uma qualidade comum em certos livros. Ouça, isto lhe dirá, o que devemos nós chamar isto? E isto vai ler-nos talvez o Rei Lear e talvez Agamemnon a fim de nos trazer essa qualidade comum. Dessa forma, com o nosso gosto nos guiando, devemos nos aventurar além do livro particular na busca de qualidades que unem livros em grupos; nós devemos dar-lhes nomes e, então, enquadrar uma regra que traga ordem nas nossas percepções. Devemos ganhar uma avançada e profunda satisfação dessa discriminação. Mas como uma regra só vive quando é perpetuamente quebrada pelo contato com os próprios livros – nada é mais fácil e mais degradante do que criar regras que existem fora de contato com os fatos, num vácuo – agora pelo menos, em prol de firmamo-nos nessa tentativa difícil, poderá ser bom se virar aos mui raros escritores que são capazes de esclarecer-nos sobre a literatura como uma arte. Coleridge e Dryden e Johnson, no seu criticismo considerado, os próprios poetas e novelistas em seus dizeres irrefletidos, são freqüentemente surpreendentemente relevantes; eles iluminam e solidificam as idéias vagas que vem tropeçando pela neblina das profundezas das nossas mentes. Mas eles só podem nos ajudar se nós viermos até eles cheios de dúvidas e sugestões ganhas honestamente no curso de nossas próprias leituras. Eles nada podem fazer por nós se nos reunirmos sobre sua autoridade e deitarmos como ovelhas nas sombras do cercado. Nós só podemos entender suas regras quando entram em conflito com as nossas próprias e as derrotam.

Se assim for, se para ler um livro como deve ser lido se pede as mais raras qualidades da imaginação, intuição, e julgamento, você poderá talvez concluir que a literatura é uma arte muito complexa e que é muito improvável que sejamos capazes, mesmo depois de uma vida inteira de leituras, a fazer qualquer contribuição valiosa ao seu criticismo. Nós devemos permanecer leitores; não vestiremos a distante glória que pertence aqueles raros seres que são também críticos. Mas ainda temos nossas responsabilidades como leitores e até nossa importância. Os padrões que construímos e os julgamentos que temos passam e infiltram o ar e se tornam parte da atmosfera que os escritores respiram como suas obras. Uma influência é criada e recai sobre eles, mesmo que isso nunca encontre um caminho até a publicação. E essa influência, se é bem instruída, vigorosa e individual e sincera, poderá ser de grande valor agora quando o criticismo está necessariamente pendente; quando livros passam por análises como a procissão de animais numa galeria de caça, e o crítico tem somente um segundo no qual carregar e mirar e atirar e for perdoado se errar trocando coelhos por tigres, águias por galinhas de porta de celeiro, ou errar tudo e desperdiçar seu tiro sobre alguma pacífica leitoa pastando em um campo distante. Se atrás do errático tiroteio da mídia o autor sentir que existe outro tipo de criticismo, a opinião das pessoas que lêem pelo amor da leitura, vagarosamente e de maneira não profissional, e julgando com grande simpatia, mas com grande severidade, não iria isso aumentar a qualidade da sua obra? E se pelos nossos meios os livros fossem ficando mais sólidos, ricos, e com maior variedade, isto seria um bom fim que valeria alcançar.

Mas quem lê para produzir um fim no entanto desejável? Não existem algumas buscas que praticamos porque elas são boas em si mesmas, e alguns prazeres que são últimos? E não é isso entre eles? Eu sonhei algumas vezes, pelo menos, que quando o Dia do Juízo Final vier e os maiores conquistadores, e advogados e políticos vierem para receber suas recompensas – suas coroas, suas homenagens, seus nomes cinzelados indelevelmente sobre o mármore imperecível – o Todo Poderoso se voltará para Pedro e dirá, não sem uma certa inveja quando ele nos olhar vindo com nossos livros sobre nossos braços, “Olhem, esses não precisam de recompensas. Nós não temos nada a dar-lhes aqui. Eles amaram a leitura.”