sexta-feira, 11 de julho de 2014

A Educação do Entendimento pelo Estudo da Linguagem








A Educação do Entendimento pelo Estudo da Linguagem
Felipe Robles Dégano
Tradução: Aline Goldoni e Leandro Diniz

Se algum dos meus doutos e ilustres ouvintes assistiu ao quinto Congresso das Ciências, celebrado em Valladolid em 1915, talvez recordará meu nome. Eu, certamente, não assisti; mas o R.P. Eusebio Hernández, S.J., leu nesta seção um notabilíssimo trabalho sobre a “Fisionomia das palavras castelhanas”, no qual fez grandessíssimos elogios à minha primeira obra, intitulada: “Ortologia clássica da língua castelhana com uma carta prólogo do Exmo. Sr. Don Marcelino Menéndez y Pelayo”.

Foi meu primeiro ofício enviar ao dito padre uma solene ação de graças por aquela recomendação tão honorífica, a qual me obriga neste Congresso a falar, não pelos meus livros, mas em pessoa e como representante dos homens de ciência de minha província e diocese de Avila, que vemos o progresso científico com o interesse que merece assunto de tal importância.

Não me peças eloquência tampouco retórica, porque não sou orador nem literato; mas espero interessar vossa atenção tratando de uma ciência já muito antiga e difícil, na verdade, mas que é necessária para que o estudante e o homem de ciência nela avancem. Esta ciência é a que tem por objeto conhecer, formar e educar o entendimento humano. 

O homem de ciência é semelhante a um piloto de avião; e assim como este é mister conhecer muito minuciosamente o mecanismo de sua aeronave e a arte de pilotá-la, assim também aquele que discorre quer elevar-se às altas regiões da ciência tem absoluta necessidade de conhecer o mecanismo e funcionamento de sua potência intelectiva. 

Mas há esta diferença: que na aeronave pode romper-se uma peça ou parar-se o motor, e então toda a habilidade do piloto é inútil; mas no vôo intelectual toda a culpa das quedas ou erros está em quem o dirige, pois o entendimento por si mesmo nem se para nem se rompe.

Nosso entendimento é um organismo espiritual complicadíssimo e universal, porque ele, entendendo, se faz todas as coisas segundo um dito popular: “intellectus intelligendo fit omnia”[1]. A direção deste organismo é o objeto próprio da lógica. Mas o estudo dele e de suas partes, sua anatomia, a chamemos assim, o conhecimento claro e distinto de seus atos, potências e formas, é objeto de outra ciência, a qual batizou Aristóteles com o nome de Perihermenias, que significa: “Da Intepretação”. 

Interpretação de que? Da linguagem, que é o único espelho em que o entendimento pode fitar-se, contemplar-se, estudar-se e conhecer-se a si mesmo. A linguagem é o entendimento encarnado em sons articulados pelo homem. A interpretação da linguagem é o vestíbulo da ciência, a verdadeira propedêutica, ou ciência primeira, que o estudante deve adquirir. Todos sabeis que a lógica começa com as noções de percepção, termo, nome, verbo, juízo, oração, preposição, suposição, universais, predicáveis. Pois bem, todas elas são próprias de Perihermenias, não da Dialética, cujo objeto próprio é o raciocínio, que é onde cabe o artifício.[2] A Perihermenias aristotélica, a encontrará no comentário das obras do filósofo estagirita: a maior parte do que Boécio escreveu está dedicada a comentar a Perihermenias: pelos comentários a este livro começam as obras de Alberto Magno e São Tomás: também Scot julgou necessário descer a este terreno e assim o primeiro do primeiro tomo de suas obras é a “Gramática Especulativa”, e o segundo os comentários a Perihermenias.
Isto prova, senhores, que no fundo aqueles grandes gênios pressentiam a persuasão íntima de que ao estudo das coisas significadas pelas palavras há de preceder o dos modos como se concebem e significam as coisas mesmas. Porque o modo de significar é sempre igual ao modo de entender, mas o modo de entender não é sempre igual ao modo de ser que a coisa tem fora do entendimento. Todo o real existe, mas a mente humana concebe muitíssimas vezes a essência das coisas prescindindo de sua existência; e em tal estado de abstração as coisas tomam na mente um modo de ser diverso do que têm fora dela.

Por isto, São Tomás e Scot indicam acertadamente que a classificação das palavras não se toma de seu significado, mas do modo de significar. Substantivo não é um vocábulo que significa substância, mas algo “por modo de substância”, e assim são substantivos os vocábulos brancura, virtude, morte; coisas que em si não são substâncias. Verbo não é um vocábulo que signifique ação, porque então a mesma palavra ação seria verbo, mas um vocábulo que significa algo “por modo de ação ou paixão”, como disse o Angélico; isto é, algo como movimento medido pelo tempo, embora este algo seja a mesma substância, como o Santo Doutor escreve tratando do ver SER. 

E já que tratamos do progresso das ciências, é muito notável que esta definição do verbo, dada pelo Doutor Angélico, e que é a única verdadeira, esteve quase setecentos anos esquecida pelos homens, mesmo pelos filósofos tomistas: ao menos eu não vi aceita por ninguém, até que eu a fiz minha em 1908. Um exemplo de que nem sempre as gerações posteriores se aproveitam dos avanços que fizeram as anteriores. 

Outro exemplo. Na Perihermenias aristotélica, escrita há dois mil e duzentos anos, se encontra que os casos relativos do nome, isto é, o genitivo, o dativo e o ablativo, não são nomes ou substantivos. Esta doutrina é filosoficamente certa, porque a relação incorporada ao nome lhe retira de sua categoria de substantivo, que é categoria absoluta, e lhe constitui na categoria relativa de adjetivo ou de advérbio: assim em “Manta de viagem”, o caso relativo de viagem é adjetivo de manta; em “estou de viagem”, o caso relativo é advérbio de estou.
 
Segundo isto, o nominativo, o vocativo e o acusativo direto, que não implicam relação acidental, não são casos, como expressamente indica Boécio referindo-se ao nominativo. Pois bem, que doutrina seguem os gramáticos neste ponto? Pois que os casos do nome são seis, dando a entender que tanto o nome é o genitivo como o nominativo, ou tanto o caso é o nominativo como o ablativo: coisa irracional e contrária a verdadeira doutrina que conta já dois mil e duzentos anos de existência. Que diria seu autor se visse que depois de vinte e dois séculos ainda segue o mundo cego à luz que ele acendeu em seu livro?
 
II

Não vou fazer aqui um tratado de Interpretação nem de Gramática; aos amigos de saber e conhecer estas coisas lhes recomendo minha obra latina Perihermenias, dada à luz em 1920, ou minha Gramática Geral, publicada em 1922, mas há de notar o que creio conveniente submeter à consideração deste Congresso.
 
A distinção entre a existência e a essência das coisas e sua separação mental é lei de nosso entendimento, de tal maneira, que constitui duas ordens de atos e potências mentais, duas ordem de vocábulos na linguagem.
 
A ordem segundo a qual se refere a existência e seu signo na linguagem é somente o verbo finito ou pessoal: todas as demais palavras, inclusive o verbo infinito ou impessoal, são signos da ordem primeira, ou das essências concebidas sem incluir nem excluir a existência.
 
Cada palavra absoluta, isto é, o substantivo, o adjetivo, o verbo e o advérbio frequentemente têm duas caras, uma à mente, e outra à coisa externa. As combinações do elemento lógico, que são os atos e potências mentais, com o elemento real, ou os atos e potências reais, dão origem a oito modos, que eu chamo transcendentais, quatro em cada ordem, como verás; e quero advertir que este estudo dos modos transcendentais, base e fundamento da Gramática e da Filosofia, é o que propriamente merece o nome de anatomia do entendimento. Apesar de sua importância, não a encontrará completa em nenhum autor, fora das minhas obras; pois até agora, os filósofos, seja por que for, se contentaram em examinar dois dos oito modos ditos, que são o juízo e o conceito universal objetivo; e mesmo neste não faltaram erros e inexatidões. 
 
Todos sabeis a gravidade e importância dos universais, e justo é reconhecê-la; mas ao fim e a cabo, os universais são um só dos quatro modos transcendentais da ordem primeira. Pois se tanta é a importância de um só modo, qual será a de todos os quatro juntos? 
 
Mas antes de passar a expô-los, façamos uma observação. Os filósofos vulgarmente apontam que as operações do entendimento são duas: a primeira é a simples apreensão; a segunda o juízo. Mas em que se diferenciam? É por acaso só na composição de termos? São da mesma ordem? São juízos todos os atos segundos da mente? Não há no entendimento potências além dos atos? Questões sem solução dentro da estreiteza dessa doutrina.
 
Escutem. Na mente, chamam-se operações primeiras as que olham só a essência; segundas, as que olham a existência. “Prima operatio (escreve São Tomás) respicit quidditaten rei; secunda respicit esse ipsius.” (I. Dist.19, q. 5, a. 1) As primeiras constituem a ordem primeira; as segundas, a segunda; a distinção de ambas as ordens está em que o objeto formal da primeira é a essência; e da segunda a existência. Mas os Escolásticos supõem ou dão a entender que em cada ordem não há mais que uma operação ou modo e eu digo, afirmo, sustento e provo que em cada ordem há quatro, como agora verão. 
 
Comecemos pelos da ordem segunda, que são mais inteligíveis.
 
III
 
Os quatro modos da ordem segunda são: o juízo, o império, a interrogação e a dúvida. O juízo e o império, são atos segundos mentais; a interrogação, potência segunda; a dúvida, pura forma segunda. Nesta ordem segunda, o ato é a determinação a um dos dois, ao ser ou ao não ser, ao sim ou ao não; a potência é o movimento até o sim ou o não; a forma é a indeterminação entre ambos. O expliquemos brevemente. 
 
Primeiro. O JUÍZO. – o juízo é a determinação produzida na mente pelo que é ou não é fora dela. Uma combinação de ato segundo mental e ato segundo real, que podemos formular assim: unum in mente circa unum in re: este unum in re é o ser ou o não ser, porque a existência é o ato segundo transcendental de todo ser.
 
O signo do juízo na linguagem é o modo atual do verbo (o vulgarmente falado, indicativo), pronunciado em tom afirmativo, do qual São Tomás escreve que significa per modum actus. Como exemplo ponhamos a confissão de São Pedro: “Tu ÉS Cristo, o Filho do Deus vivo.”
 
Segundo. O IMPÉRIO. – neste nome compreendemos os atos da razão imperados pela vontade, que são seis: império, conselho, petição, uso, concessão e desejo. Nestes atos o entendimento vai determinado pela vontade a uma coisa possível; porque ninguém pode mandar ou aconselhar o que já está feito, nem pedir ou desejar o que já possui. A fórmula destes atos é unum in mente circa duo in re, porque a coisa está em potência para ser e para seguir não sendo: são combinações de ato segundo mental e potência segunda real.

O signo destes atos é o verbo no modo potencial: este modo compreende os que os gramáticos chamam imperativo e subjuntivo, os quais são realmente um mesmo modo verbal.[3] Sirva de exemplo o convite Venite, adoremos.
 
Terceiro. A INTERROGAÇÃO. – esta, ao contrário do império, expressa a potência segunda mental acerca do ato segundo real: duo in mente circa unum in re. É o lançamento da mente em busca do sim ou do não, e seu signo é o modo atual do verbo, mas pronunciado com interrogação: – tal é a frase de Caifás a Cristo, feita com as mesmas palavras em que São Pedro fez sua confissão: “ÉS tu o Cristo, o Filho do Deus vivo?” na realidade o era, mas a mente de Caifás estava em potência para receber o sim ou o não. O signo da potência mental é o interrogante; o verbo expressa o ato real.

Quarto. A DÚVIDA. – a dúvida (de duo, dois) é a indeterminação da mente entre dois atos reais contraditórios: duo in mente circa duo in re, e se expressa por uma interrogação subordinada mediante o sim dubitável, por exemplo; Caifás não sabia “se Jesus era o Cristo, Filho de Deus”. A oração dubitável é logicamente disjuntiva contraditória, embora por elipses frequentemente se omita o segundo membro: assim, “Não sabia se era...” inclui implicitamente “ou se não era”.[4]

Estes são os quatro modos transcendentais da ordem segunda, tantas quantas são as relações entre unum y duo, in mente et in re. Unum circa unum é o juízo; unum circa duo, o império; duo circa unum, a interrogação; duo circa duo, a dúvida. A reta inteligência destes modos é uma luz refulgente que dissipa as trevas de muitos erros. Farei aqui três aplicações.
 
a)      Seja a primeira à Gramática. A questão dos modos do verbo atormenta há vinte séculos os gramáticos e filósofos. Há quem coloca dez modos, oito, seis, cinco, quatro, dois; Brocense e Escalígero não admitiam nenhum. Eu afirmo, sem medo de equivorcar-me, que os modos reais do verbo, os únicos que estuda a Morfologia, nem são nem podem ser mais que três: o atual (o indicativo) que significa a ação em ato, e corresponde ao unum in re da ordem segunda; o potencial que significa a ação em potência ou como possível, e corresponde ao duo in re da mesma ordem; e ao formal que prescinde de ato e potência segunda, por qual pertence à ordem primeira, e está constituído pelo infinitivo, o gerúndio e o particípio.[5]
A Real Academia, que antes admitia quatro modos, pôs agora cinco; acrescentou um com o nome de potencial formado pelo futurível em ría, como amaría, sería, etc. Gravíssimo é este erro; primeiro, porque essa forma não é de modo distinto do indicativo; segundo, porque não significa a ação como possível, mas como contingente, que não é igual (possível – o que pode ser; contingente – o que pode não ser); terceiro, porque o verdadeiro potencial é o chamado imperativo, com o subjuntivo, que significa a ação como possível, e não como contingente, segundo disse a Academia, confundindo essas noções metafísicas. A explicação disto pode se ver em minha Gramática Geral, nº 178.
b)      A segunda aplicação é a natureza do juízo, não bem declarada pela maior parte dos filósofos. O juízo segundo o ditado, não é a identidade dos conceitos, nem a percepção, nem a afirmação dela, nenhuma composição qualquer de simples apreensões, nem tampouco é a composição do verbo com o nome, porque então a oração Laudate pueri Domino seria juízo; o juízo é logicamente o ato segundo mental acerca de um ato segundo real, o qual implica composição de sujeito com um verbo, que juntamente signifique os dois atos, o da mente e o da coisa.
De onde se infere que a teoria dos que apontam que o verbo ser não tem mais função que o de cópula, é totalmente errônea, como errôneo seria chamar a cabeça, vínculo de união entre o tronco e o cabelo. Não há tal cópula; o predicado formal é o verbo; os atributos que frequentemente o acompanham, são partes materiais do predicado, e hoje já os gramáticos com bom acordo, não os chamam predicados, mas predicativos, como o Rev. Padre Lhobera, S.J., em sua nova Gramatica classicae latinitatis.[6]
c)       A terceira aplicação é a teoria da verdade. A verdade lógica é a equação do entendimento da coisa, e é claro que não há verdade ou falsidade no império, como em Elogia ao Senhor, nem na interrogação, verbi gracia. Sois cristãos? Mas por que só no juízo há verdade? Até agora os filósofos quiseram resolver esta questão arranhando por fora, valorizando a frase; a verdadeira solução está em que não pode haver equação senão entre coisas iguais, e somente no juízo concorrem ato com ato, que são coisas iguais; ato com potência ou potência com ato, não podem igualar-se; porque um é igual a um; dois igual a um, ou um igual a dois, impossível.[7] 
a
IV
Venhamos já às operações ou modos transcendentais da ordem primeira, cujo objeto são as essências das coisas.
 
Na ordem segunda, os elementos combinados sãos unum e duo (o sim e o não), porque a potência segunda é de contradição, como já ensinou Aristóteles. Na ordem primeira os elementos combinados são unum e multa entendendo que estes adjetivos se referem a um ou a muitos indivíduos, não à existência; e assim a potência primeira não é de contradição, mas de multiplicidade. As combinações de unum e multa dão origem a outros quatro modos, que são: o conceito singular, o universal, o percontativo[8] e o relativo. 
 
Primeiro. O conceito singular é unum in mente circa unum (individuum) in re, v.g., o conceito de Deus, do sol, desta cidade. Seu signo na linguagem são os vocábulos singulares, como os pronomes e os nomes próprios singularizados.
 
Segundo. O conceito universal é unum in mente circa multa in re, exatamente como o ensinaram sempre os Escolásticos com Aristóteles, v.g., o de homem, estrela, cor. Este conceito é um ou atual na mente, mas multiplicável ou potencial nas coisas. Estes são os universais objetivos ou in re.

Terceiro. O conceito percontativo é, pelo contrário: multa in mente circa unum in re. Seu signo são os vocábulos percontativos quem, que, qual, onde, etc. Já os antigos gramáticos Apolonio Díscolo, Prisciano, Herodiano de Trácia e outros ensinaram que estes vocábulos são infinitos, no que disseram uma grande verdade, entendido que esta infinidade é puramente mental. São, pois, signos de conceitos universais na mente, ou subjetivos mas de coisas singulares ou atuais na realidade, pelo qual são potenciais somente na mente. 
 
Exemplifiquemos. Quando chamam à minha porta e pergunto quem?, o que chama é uma pessoa determinada; mas minha mente, ao perguntar, forma um conceito vago, indefinido, potencial, determinável por infinito número de sujeitos; pois a minha pergunta pode ser respondida Pedro, João, Luis, Ana, Matilde, etc. O universal in re, como homem, é uma unidade mental que cabe multiplicada no infinito número de indivíduos: o universal in mente, como quem?, é uma capacidade mental em que cabe infinito número de indivíduos reais, um após o outro, ou todos juntos.

Quarto. O conceito relativo, cujo signo são os relativos gramaticais, é rigorosamente universal ou potencial na mente e na coisa: uma pura forma mental a priori, que nada significa fora da mente: seu valor depende dos antecedentes e sua função única é subordinar as orações convertendo-as em substantivos, em adjetivos ou em advérbios de outra oração. Não é possível nos determos em uma discussão ampla deste conceito; mas notarei que em virtude do já dito, nenhum relativo, nem simples nem composto, pode ser conjunção, ao contrário do que hoje ensinam a maioria dos gramáticos.[9]
Também é de advertir que interrogação não é mesmo que pergunta. A pergunta leva um vocábulo percontativo, que é signo da potência primeira mental, que é de multiplicidade, pelo qual à pergunta, Que horas são?, pode-se responder muitas coisas: uma, duas, três horas, etc. Mas a interrogação é potência segunda ou ad duo, pelo qual à um interrogação, exemplo, És cristão?, não pode-se responder mais que sim ou não. Isto é claro, mas busques nas gramáticas e não o acharás.
 
Outro exemplo de progresso pra trás; pois o que agora é novo no século XX já era velho no século IV como consta desta passagem de Santo Agostinho: “Inter percontationem et interrogationem hoc VETERES interesse dixerunt: quod ad percontationem multa responderi possunt; ad interrogationem vero aut non aut etiam” (De Doctr. christ. lib. 3, c. 3). Oh!, o progresso das ciências!
 
Já examinados os quatro modos transcendentais da ordem primeira, vou fazê-los ver que os erros acerca dos universais consistem em confundir um modo com outro, ou não admiti-los todos.
 
A)     Para os nominalistas, que somente admitem a unidade no nome e não no conceito, as palavras que nós chamamos universais in re, são sensivelmente unum in voce, ao estilo de um nome próprio que se impõe a muitos indivíduos (e.g., muitos Pedros).
 
Isto é sair da questão, pôr um muro entre o conceito de a voz, e ficar na escuridão para entender os vocábulos percontativos e relativos.
 
B)      Para os realistas rígidos, o universal existe formalmente fora de nós, mas como tudo o que existe em si é indivíduo para eles não há mais que conceitos singulares, embora os chamem universais com manifesta contradição. Isto confunde o segundo modo com o primeiro.
 
C)      O conceitualismo afirma que a universalidade está somente no conceito, que é o que nós defendemos ao explicar os vocábulos percontativos. O que para nós é unum in mente, é para eles multa; confundem, pois, o segundo modo com o terceiro.
 
D)     Finalmente, para Kant todas as nossas idéias categóricas são formas mentais a priori, exatamente iguais aos conceitos relativos, como os expliquei.
 
Confunde Kant o segundo modo com o quarto. Isto equivale a chafurdarmos num caos de relatividade lógica, cuja consequência é voltar incognoscível à realidade.
 
E já que falamos da relatividade lógica de Kant, suspeito que a relatividade física de Einstein, embora pareça contrária a de Kant, é em substância a mesma, pois translada da mente às coisas. E assim como na relatividade de Kant aparece a realidade das coisas, assim na relatividade física de Einstein aparece a ciência, de sorte que as noções de tempo, espaço, força e medida se convertem em outras tantas X ou incógnitas.[10]
 
Do que foi dito resulta que o nominalismo é verdadeiro somente nos nomes próprios aplicados a muitos; o realismo rígido o é somente nos conceitos singulares; o realismo mitigado é verdadeiro só nos conceitos universais objetivos; o conceitualismo é verdadeiro somente nos percontativos, ou universais subjetivos; o kantismo só é verdadeiro aplicado ao conceito relativo. Cada sistema tem algo de verdade; mas a verdade total está em admitir os quatro modos transcendentais e distingui-los convenientemente. O verdadeiro filósofo há de ser juntamente nominalista, realista, conceitualista e relativista; mas com suficiente discernimento para não confundir os conceitos.
 
Concluo, senhores, esta breve exposição das oito relações ou modos transcendentais entre a mente e as coisas, das oito peças que compõem esta admirável máquina do entendimento. Quem as conheça bem, pode lançar-se às alturas científicas sem medo de errar; aquele que ignore alguma se expõe à quedas lamentáveis. Sem o conhecimento dos modos transcendentais da linguagem se reduz a um conjunto de sons inexplicáveis, a um caos tenebroso; a Gramática é um puro convencionalismo; a Metafísica um campo de luta sem armas de precisão.
 
Efetivamente, hoje a Gramática se acha em um estado lamentável cheia de erros que, ao cair na inteligência das crianças, não podem menos que arraigar fortemente e produzir nelas uma espécie de tuberculose mental. Ao desprender-me e curar-me eu desses erros tradicionais custou-me muitos anos de trabalho e estudo. Pois quanto mais fácil é prevenir que curar! Pretendemos o progresso das ciências! Pois primeiro é limpar a Gramática dos infinitos erros que contém, e escrevê-la conforme os princípios da razão e da reta Filosofia: assim conseguiremos educar a inteligência das crianças, fazê-las homens aptos para discorrer sem estorvos, preservá-los desses erros que lhes incorrem e cortam as asas do entendimento. 
 
Por esta razão eu, que pela bondade de Deus, de quem é e a quem se deve toda a glória, creio poder fazer alguma reforma útil na Gramática, dedico à Ele todas as minhas forças, e ademais da segunda parte da Gramática Geral estou preparando outras duas gramáticas elementares, uma castelhana e outra latina para contribuir com meu óbolo à educação do entendimento da juventude e ao progresso das ciências.[11]
 
Oxalá os filósofos modernos olhem a ciência da intepretação da linguagem com o interesse que ela merece, imitando aos grandes filósofos da Idade Média, Boécio, Alberto Magno, São Tomás e Scot!

A. M. D. G.


[1] [Nota do trad.] O intelecto torna-se aquilo que intelige.
[2] A hermenêutica (Perihermenias), a gramática, a lógica e a metafísica se compenetram de tal maneira que muitas vezes se torna difícil discernir a qual ciência pertence um ponto determinado. Para acertar nisto, note-se o seguinte: A hermenêutica investiga as relações que a linguagem tem com as operações mentais e as coisas (o fato). A gramática estuda a retidão que devem ter as palavras para significar os conceitos e as coisas (o direito). A lógica trata da retidão que devem ter as operações mentais para representar as coisas, ou alcançar a verdade (outro direito). A metafísica esquadrinha as coisas mesmas representadas em seus signos.
[3] Que o imperativo e o presente do subjuntivo são reais e logicamente idênticos no tempo e no modo, pode ver-se demonstrado em minha Gramática Geral, nº 206 e 207.
[4] Sem sair dos evangelhos achamos essa oração Tu es Christus usada de cinco modos:
Afirmativa: TU ES CHRISTHUS Filius Dei vivi (Mateus 16,16).
Interrogativa: TU ES CHRISTUS Filius Dei benedicti (Marcos 14,61).
Dubitativa: Adjuro te... ut dicas nobis SI TU ES CHRISTUS Fillius Dei (Mateus 26,63).
Condicional (o dubitativo em ablativo absoluto): SI TU ES CHRISTUS, salvum fac temetipsum et nos (Iatro: Lucas 23,39)
Substantiva afirmativa> Ego credidi QUIA TU ES CHRISTUS Fillius Dei vivi (Marta: João 11,27): termo do verbo credidi.
[5] Vê-se largamente exposta e discutida esta questão dos modos do verbo em minha Perihermenias, cap., VII. Vê-se também a Gramática Geral, nº 210, 2º.
[6] Sobre esta questão veja o Perihermenias, cap., IX, art. 4º.
[7] A verdade consiste no ato, como já ensinou Aristóteles (Met. IX, 9). A verdade lógica é a conformidade do ato da mente com o ato da coisa. Mas o ato é aliquid unum e assim onde não há unum na mente e na coisa, não há formalmente verdade.
O ato ou o unum é de duas ordens: o de ordem segunda é o esse ou a existência; o de ordem primeira é o suposto singular: todo o fato (actum) é um. Na ordem segunda não há verdade fora do juízo mental, como está dito, porque respicit esse rei in actu.
Na ordem primeira há propriamente verdade na percepção dos singulares, que é unum in mente circa unum in re, como se disse logo no texto do discurso; mas esta verdade não é unívoca, senão análoga com aquela do juízo, porque não inclui o esse, e ratio veritatis fundatur in se et non in quidditate (São Tomás ubi supra), o qual deve entender-se da verdade plena e perfeita, porque nenhuma coisa é perfeita se não inclui a existência.
Na percepção dos universais in re não há verdade senão fundamentaliter, isto é, a houve na percepção dos singulares, de onde por abstração se formou o unum in mente: como no império não há verdade nos juízos práticos que o precedem (cfr. Periherm. nº 229).
Resumindo, há duas verdades lógicas, uma na ordem segunda, outra na primeira, esta análoga àquela. Enquanto não se faça esta distinção, discutir é em vão sobre se há verdade ou não na simples apreensão. Todos podem ter razão, ou ninguém, segundo o que entendem por verdade, ou por ato.
[8] [N. do trad.] Enxerto explicativo: “Tomemos ahora la pregunta del Sr. Ortega : «¿ Qué pasa en el mundo?». Observemos el signo percontativo qué. Es uno de aquellos vocablos que, como el cuál, el quién, el dónde, \-a los griegos llamaban infinitos, y lo son, por su infinidad mental. El que hace la pregunta «¿qué pasa?» lleva en la miente infinitud de cosas.” Accion Española, TOMO VI.-N.32 p.136, Julho 1933
[9] Estes quarto modos transcendentais da ordem primeira podem se fazer sensíveis mediante uma comparação geométrica.
1º No conceito singular a mente é como um ponto que cai sobre outro (a coisa), seguindo a linha reta.
2º No conceito universal objetivo a coisa está representada por uma circunferência cujo centro ocupa a mente. Este centro vê por igual a todos os pontos da circunferência (os singulares), e reciprocamente todos os pontos vêem ao centro.
Este conceito universal é direto e reflexo.
a)       O direto é universal in re e singular in mente. Neste caso o sujeito da relação é a circunferência (os singulares), o termo centro (a mente): sua definição, portanto, é multa in re versus unum in mente: muitos indivíduos unificados em um conceito. Aqui são as coisas que passam à mente com movimento direto, porque o movimento direto é sempre do indeterminado ao determinado, ou mais determinado.
b)       O reflexo é inverso do direto: singular in mente, universal in re. O sujeito da relação é o centro (a mente), o termo circunferência (as coisas): sua definição é unum in mente versus multa in re: algo mentalmente um, enquanto multiplicável ou multiplicado na realidade. Aqui é a mente quem passa às coisas, mas com movimento inverso, isto é, do determinado, o um, o atual, ao indeterminado, múltiplo e potencial.
Quando o entendimento considera o unum como multiplicável, o expressa pelo nome comum sem artigo, exemplo homem: então a circunferência representa a natureza como confusa, mas determinável ou divisível em número indeterminado de indivíduos.
Quando o entendimento considera o unum como multiplicado, o expressa pelo nome com o artigo, exemplo o homem; a circunferência representa a natureza como determinada ou dividida em número indeterminado de indivíduos.
A multiplicabilidade e a multiplicação caem sobre o unum do centro que simultaneamente se coloca em muitos pontos da circunferência: a divisibilidade e a divisão caem sobre a circunferência, que, segundo nosso modo de entender (embora na realidade não seja assim) se divide ao mesmo tempo que o centro se multiplica ou determina nos pontos dela.
3º No conceito universal subjetivo, ao contrário que no objetivo, a coisa está no centro, a mente na circunferência, dando voltas em busca de um dos infinitos raios possíveis que a leve ao centro com movimento direto: um conceito determinável por algo determinado na realidade.
4º No conceito relativo a mente está em uma circunferência: a coisa em outra interior concêntrica: multa versus multa. Não havendo centro a mente não pode ser determinada ad unum pela coisa, que não é unum senão multa. Não há aqui movimento direto à coisa; o qual se manifesta na atonia do relativo, isto é, na privação do acento que tinha o percontativo de onde procede; pelo qual este conceito não é ato nem potência, mas pura forma mental a priori, como o que é também a dúvida, com a diferença de que esta pertence à ordem segunda, porque vê a existência.
Tais são todos os conceitos e juízos científicos de Kant: puro relativismo lógico, ou de outro modo, cepticismo idealista. No sistema de Kant a mente não pode passar às coisas: daqui inferiu logicamente Fichte que as coisas saem da mente com movimento inverso: logo conhecer é criar, princípio que informa e dá vida a todo o modernismo contemporâneo.
Mas Einstein coloca a coisa na circunferência exterior e a mente na interior: não há aqui movimento direto das coisas à mente: mas relativismo real ou físico que em substância é cru materialismo. Não faltará quem tire a conclusão que a mente sai das coisas.
[10] Veja o apêndice.
[11] A Gramática Elemental Catelhana foi publicada em outubro de 1924: a Latina virá à luz em abril deste mesmo ano 1925.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

AMEAÇA PERIGOSA por Mario Lima

Jornal A Reforma, 4 de janeiro de 1931

Fonte: http://www.casadaculturadearacati.org.br/Acervo/RF1931.html

Obs. E só de pensar que o autor era esquerdista…

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O comunismo, este terrível cancro social que desfarçadamente já conseguiu dominar a Rússia, transformando-a em um paiz acefalo, está ameaçando pertubar a paz brasileira, aproveitando-se deste momento em, que a Nação, após o triumfo revolucionario de hontem, ainda procura soerguer-se da queda, a que foi forçada pelos tiranos depostos.

Segundo noticias que nos che­gam, de Fortaleza, as autoridades federaes e estaduaes ali, senhoras que estão da gravidade dessas ameaças, numa só comunhão de ideias, qual seja a de salvar a pátria do perigo, já resolveram tomar providencias imediatas, no sentido de exterminar de uma vez a introdução no Brasil dei tão terrivel praga.

Este combate se torna necessa­rio e deve ser energico, porque é so­mente com energia que poderemos rebater as insinuações dos pregadores desta ideia absurda, as quaes pode­rão perfeitamente convencer os incau­tos, únicos para quem as más dou­trinas teem certa influencia psycologica.

O comunismo, já declarou o ge­neral Juarez Tavora, é impraticavel no Brasil, ele não se coaduna absoluta­mente com a mentalidade sadia do nosso povo.

O proletariado brasileiro que em todos os tempos tem demonstrado muito calma e amor á ordem, temos certeza, não irá prestar o seu apoio a uma causa tão ingrata, como o co­munismo, porque a sua índole de po­vo ordeiro está convencida de que com inteligência e respeito muito se alcançará.

Nós, para vermos os nossos di­reitos assegurados, não precisamos de uma mudança geral na fórma de go­verno, e sim de homens capazes de dirigir os nossos destinos e que, em momentos precisos, ponham de parte o interesse pessoal, para abraçar a causa do povo.

O que necessita o operário para ter amparado o seu trabalho e poder viver independente, não é implantar a desordem, e sim que os governos não se esqueçam de sua sorte e re­conheçam o seu papel saliente na vi­da progressiva do paiz. Que os go­vernos encarem com seriedade o pro­blema proletário e valorisem os seus serviços, para que o fruto do seu la­bor diário possa constituir amanhã o seguro de sua família.

É disso somente o que eles, os operários, precisam e estamos crentes de que, uma vez regularisada a situ­ação que presentemente atravessamos, os dias do futuro nos trarão a reali­dade das nossas esperanças, que são os pontos do programa revolucioná­rio.

E enquanto isso se verifica, faz-se mister que cada um de nós, bra­sileiros dignos desse nome, se enfi­leire no batalhão ante-comunista, en­frentando sem desfalecimentos, qual­quer ataque violento e rebatendo, sem visar recompensas, todas as promes­sas ilusorias.

O momento exige que ponhamos acima de tudo o amor desta grande patria e procuremos demonstrar com dados irrespondíveis os efeitos nega­tivos das ideias de Lenine, no scenario social do Brasil.

Convem não esquecer que temos um passado glorioso a legar á pos­teridade e este deve ser o trabalho honesto em pról da grandeza da Na­ção. e não um amontoado de ideias anarquistas, que nos arrastariam a um futuro de trevas.

Ao comunismo devemos, pois, dar combate de rijo, sem causticar em lin­guagem capciosa, o que é propria so­mente aos jornalistas aproveitadores, mas com termos decididos, e onde quer que descubramos um fóco de adeptos, que os apontemos á justiça, para que seja feita a punição indis­pensável.

Assim procedendo, temos cumpri­do á risca o nosso programa e coo­perado sinceramente para a obra da regeneração do Brasil, puramente bra­sileiro.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

IDENTIDADE

PETER KREEFT

Fonte: http://www.catholiceducation.org/articles/philosophy/ph0011.htm

Tradução: Leandro Diniz

Nota: Aqui, como em todos os lugares, a tradução do “self” sempre causa problemas de perdas semânticas que, se não ignoradas, tornam a tradução impossível. Logo, remeto o leitor à familiarizar-se com o sefl, que aqui vai traduzido como eu. Em linhas gerais o self é a propriedade auto-reflexiva do homem; sua natureza íntima consigo mesmo; sua capacidade de se constituir-se à imagem e semelhança do que planeja, ou não, ser. Parece-me que essas três características se fundem no conceito do self, enquanto nosso Eu, devido às perdas semânticas sucessivas que sofreu em nossa linguagem, parece-me apenas apontar para uma substância já definida e extática, que funciona como um todo acabado, ao qual as pessoas sempre se referem para não deixarem de ser “si mesmas”.

O Eu humano não é um dado, um objeto, uma essência, cuja natureza essencial é imutável e garantida, como tudo o mais no Cosmos. Nossa natureza é uma tarefa que nos foi dada para atingi-la. Nós, sozinhos, podemos falhar em alcançar nossa natureza.

Esta coisa da identidade – há mais aqui do que aparenta, mais do que falam a maioria dos psicólogos, mais do que podemos compreender e o que eu vou apresentar são mais perguntas que respostas. Mas eu acho que é um ponto profundo, então eu vou dizê-lo. Este ponto, de que nossa própria individualidade é por natureza instável e incerta, este é um ponto que pasma e perplexa muitas pessoas, algo como a teoria das formas de Platão, na metafísica. O ponto é que o Eu humano não é um dado, um objeto, uma essência, cuja natureza essencial é imutável e garantida, como tudo o mais no Cosmos. Triângulos nunca podem ser não-triangulares e rochas estão sempre garantidas serem rochosas, a grama é sempre gramínea e cães são sempre caninos e gatos são sempre felinos, mas os seres humanos podem ser desumanos. Nós, sozinhos, podemos falhar em alcançar nossa natureza. Nossa natureza é uma tarefa que nos foi dada para atingi-la, não um fato que nos foi dado para simplesmente recebe-lo.

Agora foram os filósofos existencialistas, que sublinharam este tema e, muitos deles, notavelmente ateus como Sartre, inseriram-no corolários que não precisam estar junto dele; por exemplo, não há nenhuma essência humana, não há nenhum sentido e a vida é, portanto, sem sentido; temos de criar nossa própria essência e criar nossos próprios valores; que nós somos deuses e que toda a conformidade e a receptividade são ameaçadoras e desumanizantes à nossa liberdade. O ponto não requer qualquer um desses corolários. Na verdade, o ponto é muito tradicional e remonta pelo menos tanto quanto a meu amigo Boécio, novamente. Aliás, considero o velho clássico de Boécio muito tradicional – e, até entrar no Livro V e tratar da predestinação e o livre-arbítrio, não é em nada original; é apenas cópia da sabedoria antiga – noto que meus alunos acham o livro surpreendente. É-lhes revolucionário, porque a tradição é revolucionária. Em uma época quando a revolução torna-se tradição, a tradição torna-se revolução.

Então este é o ponto tradicional citado de Boécio: "O que quer que seja, deve ser bom [ele quer dizer, ontologicamente bom, não necessariamente moralmente bom]. Daí resulta, que tudo o que perde sua bondade perde seu ser. Assim, homens ímpios deixam de ser o que eram. Dar-se ao mal é perder sua essência humana. Assim como a virtude pode elevar uma pessoa acima da natureza humana, o vício pode reduzir, aqueles a quem seduziu, da condição de homem, abaixo da natureza humana. Por esta razão, quem você encontrar transformado pelo vício não pode ser realmente considerado um homem [ou no caso, um hobbit. Gollum é um ex-hobbit, um Hobbit falhado. E o Nazgûl é um ex-homem, ou ‘não homem’ (Un-Men), para usar o termo arrepiante de C. S. Lewis em Perelandra]." Boécio continua: "o homem que é orientado pela avareza … é um lobo. O homem inquieto, irritado, que passa sua vida em brigas nós devemos compara-lo a um cão. O conspirador traiçoeiro que rouba por fraude pode ser comparado a uma raposa; o homem que é governado pela raiva destemperada, pensamos corretamente ter a alma de um leão. O homem tímido e medroso que treme sem motivo é como um cervo; o companheiro preguiçoso e estúpido é como um burro. O homem volátil e inconstante, que continuamente muda de direção, é como um pássaro; o homem que está afundado em suja luxúria está preso nos prazeres de um porco imundo."

Agora, essas não são analogias hábeis. Ele não está fazendo eisegese, está fazendo exegese. Ele está olhando para as pessoas que estão presas a um vício e dizendo: eles estão perdendo sua natureza humana. "Dessa maneira,", conclui, "alguém que abandona a virtude deixa de ser um homem, uma vez que não pode compartilhar da natureza divina – em vez disso torna-se uma besta". "Não pode compartilhar da natureza divina" – o que ele quer dizer aí? Bem, acho que ele está pensando na imagem de Deus. Se nós somos feitos à imagem de Deus, nós somos remotas participações criaturais finitas da natureza divina. Nós somos em algo como Deus. O que é Deus? Eu – o nome de uma pessoa. Logo, somos pessoas. Agora, se você está dominado pelo vício, o que você perde? Você perde a imagem divina, você perde a coisa mais sagrada de todas: sua personalidade. C. S. Lewis e Charles Williams foram ambos bastante incisivos sobre isso. Seu retrato do inferno: um cenário onde você não podia mais dizer Eu. Você já não pode pronunciar a palavra sagrada; você perdeu-se. E Tolkien nos mostra tal pessoa em Gollum. Ele gradualmente perde a capacidade de dizer Eu; ele diz Nós.

Tolkien, como C. S. Lewis, conhecia o sehnsucht, este desejo misterioso de algo que-não-sabemos-o-que, algo além deste mundo. E como Lewis, ele pensava que isto nos leva ao nosso verdadeiro Eu, mas significa esquecermos de nós mesmos. Sehnsucht é auto-esquecimento. É metade do paradoxo de que se você perder seu Eu você vai encontrá-lo. E o vício é a outra metade. Se você encontrar seu Eu, se você alcançá-lo, você vai perdê-lo. Quando o objeto que desejamos por sehnsucht realmente é Deus, ou atributos divinos como verdade, bondade e beleza, você não pode possuir esse objeto. O objeto não é possuível, somente ele pode possuir você. E, paradoxalmente, só então estamos realizados; só então nossa essência é estabilizada: quando não possuímos o objeto que desejamos, mas ele nos possui.

Por outro lado, a violação do primeiro e maior mandamento – que é idolatria, ou seja, fazer outra coisa que não Deus nosso deus, fazer alcançável nosso objetivo e, em seguida, possuí-lo; então você está desfeito – foi o que aconteceu no Éden. Uma vez que colocamos as mãos no fruto desejado, o efeito horrível ocorreu imediatamente: ele colocou suas mãos sobre nós. O Eu foi "des-Eu-zado" [unselfed] – não preenchido ou realizado, mas esvaziado, devastado. O objeto, a maçã, transformou-se num deus e nós nos encolhemos em seus escravos. Trocamos posições; nós nos tornamos os objetos, as coisas, e ele tornou-se o sujeito, o eu, o senhor, o deus. Descobrimos nossa identidade no que era menor que nós mesmos, em algo que poderíamos possuir. Então, fomos possuídos por nossa posse ou por nossa possessividade. Que é precisamente a psicologia de Sauron e o Anel. Nós, que começamos como Adão (Homem) nos tornamos o golem, o "não homem". Acho não foi por acaso que Tolkien escolheu o nome Gollum para Smeagol; na lenda judaica, certamente, golem é o "não homem". Gollum ilustra uma metade do paradoxo; Frodo e Sam ilustram a outra metade. Eles se alcançam e se salvam porque eles se doam – para outros, para o Condado, para o mundo; não para alguma causa abstrata, mas um para o outro e para o Condado – coisas concretas.

Em contraste, Gollum está obcecado com sua causa, com sua possessão do anel. Ele não tem mais quase nenhum eu sobrando, ele é tão egoísta. Ele fala consigo mesmo mais do que com os outros. Ele não faz distinção entre ele mesmo e seu "Precioso". Ele está confuso sobre quem é. Fala de si mesmo na terceira pessoa: "Não os deixe machucar-nos, Precioso!" Ouça: "Não os deixe machucar-nos, Precioso!" É o Anel que é agora o Precioso e Gollum perdeu sua preciosidade, seu valor. Ele tornou-se escravo do Anel; este se tornou seu mestre. Isso é fetichismo. Você venera o fetiche. Você deixa o objeto tornar-se seu sujeito, seu mestre. Na verdade, o objeto agora se tornou a pessoa, o eu, o ator, e Gollum tornou-se seu objeto, sua "coisa". Ele colocou sua alma dentro do fetiche, exatamente como Sauron fez quando fabricou o Anel, de modo que sem aquela coisa sua alma está literalmente dividida em dois. Ele não é nada. Ele não consegue distinguir-se do anel; ele é o Anel. A pessoa tornou-se uma coisa, ele perdeu sua alma: esta é a psicologia da danação.

Tolkien esclarece enormemente o ponto em algumas de suas cartas sobre o motivo de Sauron e implica que existe um paralelismo psicológico e social, um estreito paralelismo, entre isso e algo que estamos fazendo na civilização ocidental moderna, embora não o faça clara e proclamadamente. Ele diz que quando Sauron forjou seu Anel, colocou nele muito do seu poder e, portanto, muito do seu eu, uma vez que é com o poder que ele se identifica ou onde encontra sua auto-identidade. Assim, tanto para Sauron quanto para Gollum, perder o Anel é perder seu eu. E aquele que perdeu seu eu, que tem como eu apenas o vazio e as cinzas, sempre exigirá reduzir todos os outros eus à vacuidade e cinzas. E é por isso que Sauron precisa reduzir toda a Terra-Média a cinzas, às suas cinzas, a si mesmo. É o desejo de morte. Você encontra isso, obviamente, em tiranos como Hitler. Mas isso é o que fazemos, quando nos identificamos com nossas coisas. George MacDonald diz, “um homem está escravizado a tudo aquilo que, sendo menor do que ele mesmo, não pode prescindir." Isso é assustador. Sauron é incomodamente familiar. Ele é apenas um exagero ou uma hipertrofia de nós, ou, pelo menos, de uma possibilidade para nós. Por esse caminho, encontramos o tenente do Portão Negro de Barad-dur; que sai ao Portão Negro para encontrar os Sete Mil, naquela última cena. Tolkien diz, "seu nome não é lembrado em nenhum conto; ele próprio tinha o esquecido, e ele disse: 'Eu sou a Boca de Sauron'".

Uma das coisas sobre as quais é quase impossível falar na literatura moderna é a danação. Tolkien o faz sem usar a palavra. Penso – apenas como uma suspeita pessoal – que até mesmo os descrentes têm medo da morte, principalmente, não por causa da dor, pois a maioria das mortes não são dolorosas, embora algumas sejam, e nem mesmo porque amam tanto a vida, que a perderão e acreditam que jamais a conseguirão de volta (o que é mais grave), penso, lá no fundo, eles sabem que nós não sabemos o que vem depois, mesmo que finjamos convicção, nós não sabemos. Dessa maneira, ninguém sabe que o inferno não existe e que eles não vão para lá – mesmo o menor ingrediente desse medo absoluto é assustador, mas nós não ousamos dizê-lo. Assim, quando Tolkien mostra isto numa obra, é impactante. De vez em quando você vê isso na arte popular, como no filme Ghost. Lembram daquela cena, onde os demônios pretos saem da escuridão e arrastam um bando de delinquentes juvenis, que estão matando alguém –eles os arrastam para fora do tempo e do espaço, obviamente para o inferno? Que cena surpreendente.

Aqui está como Lewis expressa o ponto da volatilidade de um eu, ou a fragilidade de um eu – novamente, em Cristianismo Puro e Simples, que penso, a propósito, ser uma obra-prima absoluta, um dos livros mais importantes do século XX; e se fosse preciso dizer qual o aspecto do cristianismo destacou-se no século XX, como o de maior progresso, provavelmente eu diria: o ecumenismo, e se você me perguntasse qual singular obra ou o autor fez o máximo para isso, eu diria: este livro. Eu acho que a outra grande conquista de Lewis é algo, aliás, que nenhum outro autor em toda a história da literatura humana jamais conseguiu fazer: apresentar Jesus Cristo como um personagem atraente; ele fez isso nas Crônicas de Nárnia. Inúmeras pessoas são pegas desprevenidas, especialmente as crianças, se apaixonando por Aslan, muitas vezes dizem, "Eu amo Aslan mais do que eu amo Jesus; isso é muito ruim?" E a resposta de Lewis, claro, é: Não, Aslan é Jesus. Como eu posso amar a Aslan mais do que a Jesus? Bem, eu peguei você distraído. Você sente por Aslam, espontaneamente, o que os contemporâneos de Jesus sentiram por Ele. Qual outro livro sobre Jesus consegue fazer isso? Eu não sei de nenhum. É um feito surpreendente. Ele apenas faz isso, é claro, mergulhando no mito: Aslan é um leão, não um homem e está em Nárnia, não na terra. Então afastar do familiar é a única maneira de torna-lo mais familiar – bem, aqui está como ele explica em Cristianismo Puro e Simples, a outra grande obra-prima, o ponto sobre a instabilidade o eu: "sempre, que você faz uma escolha, está transformando a sua parte central, a parte de você que escolhe [ele que dizer o Eu], em algo um pouco diferente do que era antes. E, tomando a sua vida como um todo, com todas as suas inumeráveis escolhas, ao longo de toda a sua vida, você, lentamente, está transformando essa coisa central ou em uma criatura celestial ou numa criatura infernal: ou numa criatura que está em harmonia com Deus, com outras criaturas e consigo mesmo, ou então em uma que está num estado de guerra e ódio com Deus, com seus semelhantes e consigo mesmo. Ser aquele tipo de criatura é o paraíso: ou seja, é alegria, paz, conhecimento e poder. Ser o outro significa loucura, horror, idiotice, raiva, impotência e solidão eterna. Cada um de nós a cada momento está progredindo rumo a um estado ou outro."

E é claro que você vai pensar, se você já leu Peso de Glória, no melhor parágrafo que Lewis jamais escreveu, aquele último parágrafo do sermão dourado, sobre não existir nenhuma criatura comum: Sempre que você interage com outro ser humano, você está ajudando a transformar a si mesmo e àquela outra criatura tanto em algo tão celeste, que se você o visse agora estaria fortemente tentado a curvar-se e adorá-lo, ou então em algo tão horrível que só poderia ser encontrado num pesadelo. E nós estamos sempre ajudando uns aos outros, em direção a um desses dois destinos, em cada pequena escolha que fazemos.

Uma outra citação de Cristianismo Puro e Simples, deste ponto sobre a volatilidade do Eu (este é o último parágrafo do livro): "Até que você tenha se entregado a Cristo, não terá um verdadeiro eu. … Deve haver uma real desistência do eu. Você deve joga-lo fora, "às cegas", por assim dizer. Cristo, de fato, lhe dará uma personalidade real: mas você não deve ir a Ele por causa disto. Enquanto sua própria personalidade é o que te incomoda, você não está, de todo, indo para Ele. O primeiríssimo passo é tentar esquecer completamente sobre o eu".

Ele diz em outro lugar que esta é a definição de humildade. Humildade não significa ter uma baixa visão de si mesmo. Significa não ter nenhuma visão de si mesmo. Ter uma baixa visão de si mesmo é miserável; psicólogos sabem disso. A humildade também é a solução para o problema da introspecção. Se eu me pergunto, "como estou indo?" Eu tenho uma das três respostas: "bem", "terrivelmente" ou "mais ou menos". Se eu disser que estou indo bem, eu sou um fariseu pedante e vaidoso, orgulhoso, convencido e arrogante; se eu disser que eu estou indo mal, eu sou um verme miserável com um complexo de culpa e preciso de algum psiquiatria; e, se eu digo que estou num tipo de meio termo, logo eu sou um enfadonho e insosso Charlie Brown. Então, qual é a solução? Não olhe para si mesmo. Meça sua temperatura quando você estiver doente; caso contrário, olhe para outras pessoas e para Deus. Eles são muito mais interessantes.

O primeiro passo é tentar esquecer-se completamente. Seu verdadeiro eu, seu novo eu, não virá, enquanto o estiver procurando. Ele somente virá quando você estiver procurando por Ele. Isto soa estranho? Não deveria soar. O mesmo princípio vale para as outras questões cotidianas. Mesmo na vida social: você nunca pode causar uma boa impressão nas outras pessoas, até que você pare de pensar sobre qual tipo de impressão está causando. Mesmo em literatura e arte: ninguém que se preocupa com a originalidade pode jamais ser original. Ao passo que, se você simplesmente tentar dizer a verdade, sem se preocupar um segundo sequer em quantas vezes ela foi dita antes, você, nove vezes de dez, tornar-se-á original, sem nunca o ter notado. Este princípio pervade toda a vida, de cima a baixo: desista de si mesmo e você vai encontrar o seu verdadeiro eu. Perca seu eu e salva-lo-á.

Submeta-se à morte – morte de suas ambições, seus desejos favoritos, todos os dias, e a morte de todo o seu corpo no final; submeta-se com cada fibra de seu ser, e você vai encontrar a vida eterna. Não mantenha nada. Nada do que você não tiver dado, nunca será realmente seu. Nada em você que não tenha morrido nunca poderá ser ressuscitado dos mortos. Olhe para si mesmo e você encontrará, a longo prazo, apenas ódio, solidão, desespero, raiva, ruína e decadência. Olhe para Cristo e você vai encontrá-Lo e com ele todo o resto através dele. Ou, como disse uma vez o homem mais prático que já viveu, e esta é minha candidata para a frase mais prática já proferida na história do mundo, "O que é que aproveita o homem, se ele ganha o mundo inteiro e perde seu próprio eu?" Pessoas ouvem isto e resistem, porque, sendo direto e desafiador, é familiar. Eles lêem a história de Tolkien e vêem e não conseguem resistir.

Palestra de Peter Kreeft sobre
Identidade (em inglês)
(18 minutes) (5.3MB)

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AGRADECIMENTOS:

Peter Kreeft. “Identidade.” uma palestra no Trinity Forum Academy (6 de junho de 2005)

O AUTOR:

Peter Kreeft, Ph.D., é professor de filosofia do Boston College. Ele é ex-aluno do Calvin College (1959 Humanidades) e Fordham University (Mestrado em 1961, Ph.D. em 1965). Ele ensinou em Villanova University entre 1962-1965 e está no Boston College desde 1965.

É autor de inúmeros livros (mais de quarenta e contando), incluindo: The Snakebite Letters, The Philosophy of Jesus, O Manual do Peregrino Moderno, Prayer: The Great Conversation: Straight Answers to Tough Questions About Prayer, Como Vencer a Guerra Cultural, Love Is Stronger Than Death, Philosophy 101 by Socrates: An Introduction to Philosophy Via Plato's Apology, A Pocket Guide to the Meaning of Life, e Before I Go: Letters to Our Children About What Really Matters. Mais em português: Buscar Sentido no Sofrimento, Jesus - O Maior Filósofo Que Já Existiu, Socrates e Jesus: o Debate, Manual De Defesa Da Fé - Apologética Cristã, A Arte de Virar o Jogo. Peter Kreeft está no Conselho Consultor do Catholic Education Resource Center.